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Personagens e Percepções

FOTO: Freepik

Aconteceu no Peru. Vi a notícia na Folha de S. Paulo e no Estadão. Não é nada de mais. De todo modo, fiquei impressionado com a ingenuidade dos tomadores de decisão. O assunto não teve muita repercussão por aqui. Também pudera. Somos um país tão imenso, inundado diariamente com tantas notícias estapafúrdias, que temos pouco tempo para dedicar aos acontecimentos do restante da América Latina — por sinal, uma região de cultura profícua e energia criativa única, tanto para produzir coisas belas quanto para gerar notícias estapafúrdias. Para quem quiser saber mais sobre essas histórias, recomendo “América Latina lado B: O cringe, o bizarro e o esdrúxulo de presidentes, ditadores e monarcas dos vizinhos do Brasil”, do jornalista Ariel Palacios. O livro — didático e divertido — tem notícias estapafúrdias na proporção em que eu repeti a expressão neste parágrafo.

Vamos ao que interessa. O Congresso do Peru teve uma ideia. Não vou dizer que foi estapafúrdia, o julgamento será todo seu. O que importa é que o Congresso do Peru teve uma ideia. E essa ideia foi criar um mascote. Isso mesmo, um mascote. Esse mascote, vejam só, chama-se Congresito. Isso aí. Essa era a notícia. O nome da criatura parece até a gente falando aquele portunhol constrangedor quando tem a oportunidade de passear por onde se fala espanhol. Mas, claro, faz todo sentido. É o Congressinho deles. “O Pequeno Príncipe”, clássico do francês Antoine de Saint-Exupéry, por exemplo, chama-se “El Principito”. O nosso glorioso Zé Gotinha — que, lamentavelmente, vive dias difíceis —, seria algo como Juan Gotita entre nossos vizinhos (será que existe?).

Enfim, o Congresso do Peru teve essa ideia. A ideia surgiu como uma forma de estreitar os laços entre a instituição e a população. Só que, ao que consta, não deu muito certo. Em vez de as pessoas se encantarem pelo lúdico, pela criatividade — o mascote tem o formato do prédio do parlamento —, o que houve foi uma chuva de críticas, xingamentos e memes emitidos por gente que anda pouco enamorada com a atuação do Congresso peruano. Uma conta julgou mais adequada a alcunha “Corrupcito”. Outros usuários sugeriram um rato ou uma barata para representar os parlamentares. Houve quem indicasse um caixa eletrônico como a melhor representação da instituição. Reações para lá de indigestas na terra da alta gastronomia.

Mascotes são sensacionais. Veja a energia do Tony, do Sucrilhos. A irreverência de Duo, do Duolingo. O carisma do Bib, da Michelin. A simpatia serelepe do Lek Trek, da Sadia. Ou o Coelhinho da Duracell, cor-de-rosa e pilhadão. São todos, sem sombra de dúvidas, elementos de apelo incontestável para a consolidação e a manutenção da relevância dessas marcas. E foi aí que a marca “Congresso do Peru” falhou. O parlamento não chegou agora, não é uma novidade no “mercado”. Se fosse, até faria sentido chegar com o “pacote completo” de marketing e lançar um mascote. A julgar pelos comentários vistos nas matérias, a instituição tampouco anda com um prestígio elevado por lá. Daí, antes de trazer uma novidade engraçadinha, seria legal ter uma boa pesquisa de aprovação e rejeição em mãos.

É até bastante provável que uma casa do tamanho de um Congresso de uma nação tenha essa tal pesquisa. Se tiver, aí sim a coisa fica estapafúrdia. Suponhamos que o resultado hipotético de um levantamento indicasse que havia arranhões na imagem do parlamento. Uma das soluções seria criar um mascote? É claro que não. Entretanto, essa costuma ser uma das soluções fáceis, porque as difíceis — reestruturações, fluxos, transparência, atendimento de excelência — levam muito tempo, geram pouca mídia e são politicamente muito desgastantes. E, a partir do “É claro que não.” acima, eu já nem me refiro à instituição peruana, mas a muitas organizações públicas e privadas do Brasil.

Ainda tem muita gente que acredita que o tal do “marketing” (chamam tudo de marketing) vai dar conta de resolver todos os problemas. Só que problemas costumam ir muito além de um departamento. Lógico que estratégias de comunicação bem elaboradas podem ajudar a corrigir rotas, impulsionar iniciativas e alavancar marcas. Mas, sem competência, seriedade e disposição para fazer ajustes duros, o aparato não se sustenta. Observe que não são poucas as histórias de marcas que até hoje são reconhecidas por campanhas, slogans ou mascotes memoráveis, mas que já deixaram de existir há tempos. Seja porque foram mal geridas, seja porque foram absorvidas por concorrentes ou, pior, porque — ainda que fossem simpáticas — foram abandonadas pelo povo. Mascote é muito legal, mas não ganha jogo. Tá aí o lindíssimo e marrento Canarinho Pistola para confirmar.


(*) Jornalista e publicitário. Professor na Univale e poeta sempre que possível.

Instagram: @bob.villela | Medium: bob-villela.medium.com

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