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Você se deixa abusar?

Lucas Nápoli

Lucas Nápoli

Os maiores ensinamentos que recebi de minha mãe a respeito da existência foram enunciados na forma de ditos populares. Eu seria capaz de escrever um livro inteiro (e talvez um dia eu realmente faça isso) somente comentando todos os provérbios que ela costumava utilizar sempre que precisava me apresentar as duras realidades da vida.

Uma dessas máximas que ficaram bastante presentes em minha memória é a seguinte: “Enquanto tiver cavalo, São Jorge não anda a pé”. Minha mãe costumava proferi-la sempre que precisava me ajudar a reconhecer a minha parcela de responsabilidade sobre os problemas relacionais dos quais me queixava. Em bom “psicanalês”, nessas situações minha genitora estava contribuindo para minha retificação subjetiva, termo que, na terapia psicanalítica, designa o processo em que o paciente é levado a reconhecer sua implicação como sujeito no sofrimento do qual ele incialmente se apresenta apenas como objeto. Em outras palavras, ao dizer que “Enquanto tiver cavalo, São Jorge não anda a pé”, minha mãe estava me indicando que aqueles problemas relacionais que me faziam sofrer só se mantinham porque eu, de alguma forma, permitia, consentia, autorizava o que faziam comigo.

É difícil falar sobre isso sem aparentar insensibilidade. Afinal, no senso comum, quando estamos diante de uma relação conflituosa, temos a tendência a localizar quem está certo e quem está errado, quem é o mocinho e quem é o bandido. Essa é uma maneira infantil de enxergar a realidade, mas, infelizmente, no mundo contemporâneo ela está bastante em voga. Assim, quando se fala, por exemplo, em relações abusivas, a tendência que se vê sobretudo no reino encantado das redes sociais é a de “monstrificar” a pessoa que estaria na posição de abusadora e encarar o indivíduo que estaria na condição de abusado como uma vítima angelical que não teria responsabilidade alguma pela situação na qual se encontrava.

Repito: esse é um olhar infantil sobre as relações humanas. É a criança que não suporta as ambiguidades e ambivalências inerentes à realidade e, por isso, precisa dividir o mundo entre “pessoas do bem” e “pessoas do mal”. É por isso que criança adora desenho animado, posto que, em geral, essas produções costumam trabalhar com essa dicotomia, que só existe no mundo da fantasia. Na realidade concreta, não existem anjos nem demônios, mas apenas pessoas com suas contradições, incongruências e incoerências.

Quando adotamos um olhar maduro para as relações, somos forçados a reconhecer que uma relação de abuso nunca se sustenta sem o assentimento tácito da pessoa que se coloca na posição de abusada. Essa anuência geralmente é motivada por fatores de natureza inconsciente, mas isso não significa que a pessoa não seja responsável por eles. Não estou dizendo com isso, é óbvio, que a pessoa que está na posição de abusadora não tenha sua parcela de responsabilidade; é claro que tem! Contudo, é inevitável reconhecer que uma pessoa abusadora só consegue manter uma relação abusiva de amor ou amizade com quem consciente ou inconscientemente aceita ser abusado. Com efeito, evocando aqui outro dito popular: “Quando um não quer, dois não brigam.”. Se o cavalo for embora, São Jorge será obrigado a andar a pé.

Estou chamando sua atenção para isso, caro leitor, porque atualmente estamos imersos num ambiente cultural que nos incita constantemente a nos percebermos como vítimas – o que constitui um verdadeiro crime contra a saúde mental. Todos nós podemos ser efetivamente vítimas de diversas situações que não estão sob o nosso controle – trata-se de uma possibilidade inevitável. Contudo, o problema não estar em ser vítima, mas em perceber-se como vítima, ou seja, assumir uma identidade que se caracteriza essencialmente pelo fato de sofrer os danos causados por outra pessoa. Quando nos enxergamos assim, apenas como objetos do gozo alheio, não conseguimos perceber nossa capacidade de sair da situação de abuso. Afinal, para tomar a decisão de abandonar a relação abusiva, eu preciso me colocar numa posição ativa, de sujeito. Quando me penso exclusivamente como vítima, estou me mantendo numa posição passiva. A tendência, nesse caso, é que eu não me veja capaz de romper com a dinâmica abusiva e fique esperando a vida inteira que o outro tome a iniciativa de me libertar.

Portanto, quem sofre com um padrão abusivo em suas relações de namoro, casamento, amizade, trabalho ou em qualquer outra esfera da vida, precisa, em primeiro lugar, reconhecer de que maneira contribui para a manutenção dessa relação doentia. Em casos mais leves, um simples exame de consciência (como se diz no contexto religioso católico) é o suficiente para que o sujeito se dê conta das formas por meio das quais ele se deixa abusar. Já em situações mais graves, nas quais a dinâmica de abuso já está presente há muito tempo, o melhor é procurar ajuda psicoterapêutica qualificada. Em todo caso, a saída de uma relação abusiva passa pela capacidade de assumir a responsabilidade pelo “deixar-se abusar”. É só a partir do momento em que sou capaz de confessar para mim mesmo que me deixei durante muito tempo ser objeto do gozo do outro, é que me torno igualmente capaz de decidir sair dessa posição.


Dr. Lucas Nápoli – Psicólogo/Psicanalista, Doutor em Psicologia Clínica (PUC-RJ), Mestre em Saúde Coletiva (UFRJ), Psicólogo clínico em consultório particular,  Psicólogo da UFJF-GV, Professor e Coordenador do Curso de Psicologia da Faculdade Pitágoras GV e autor do livro “A Doença como Manifestação da Vida” (Appris, 2013).

As opiniões emitidas nos artigos assinados são de inteira responsabilidade de seus autores por não representarem necessariamente a opinião do jornal

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