UM DIRIGENTE CHAMADO ALMYR VARGAS DE PAULA

Luiz Alves Lopes (*)

A legislação esportiva vigente em nosso país é por demais frágil, vulnerável e inconsistente, permissiva, mesmo em relação ao cidadão que adentra os meandros administrativos de clubes, federações, confederações e tudo aquilo que guarda consonância com tais atividades.

Foi-se o tempo em que pessoas de bem, apaixonadas, desinteressadas em levar vantagens, administravam clubes e instituições com amor, carinho, paixão e dedicação incomum. Verdadeiros apaixonados e passionais. Tudo faziam em detrimento, às vezes, de seus negócios e com sacrifícios das próprias famílias.

A história registra iniciativas de pessoas de bem, possuidoras de patrimônios e de lastros financeiros, as quais, gerindo com o coração e não com a razão, injetaram recursos em clubes e associações e, vencidos períodos administrativos, credoras se tornaram, porém, nada receberam. E tiveram problemas em suas atividades particulares.

É bem verdade que o agrupamento acima foi substituído por outro, mais moderno e atualizado, com bons propósitos e ideias, porém, dotados de criatividade e sagacidade, colocadas à disposição das instituições que geriam, tudo sob o manto da correção. Esse grupo também se foi. Exceções? Provavelmente.

Nas últimas décadas, sob o manto da modernidade e da globalização, fomos contemplados com um bando de dirigentes gestores, verdadeiros crápulas, que têm levado um grande número de clubes e instituições do gênero a um verdadeiro estábulo de falidos ou em vias de tal.

O que será do Corinthians e seu estádio? Qual o destino do Cruzeiro das Minas Gerais? Quando Fluminense, Vasco e Botafogo voltarão a ser verdadeiramente “grandes”? E a Portuguesa “Lusa do Canindé”, conseguirá ressuscitar? Exemplos à parte, por este país afora, não importando se grande ou pequeno, se clube profissional ou clube social, quantos estão à deriva?

O país carece de reformas profundas na maioria de sua legislação, afigurando-se como imprescindível a reforma da Lei Zico, sucessora da Lei Pelé. Estatuto do Torcedor e legislação que disponha sobre fiscalização do gerenciamento de clubes e afins também serão bem recepcionadas. Porém, difícil de ocorrer.

Administrar clubes de futebol no Brasil não é tarefa fácil. Disso todos sabemos. Basta olhar para o cenário atual: São Paulo, Santos, Cruzeiro e Corinthians são alguns exemplos.

Aqui na terrinha, outrora Princesa do Vale, temos o Esporte Clube Democrata como representante maior e que no futebol profissional é o que tem mais tempo de vida. Em sua direção, em passado razoavelmente distante, extraordinárias figuras estiveram à frente da Pantera da rua Osvaldo Cruz. Enumerá-las aqui e agora não seria salutar.

Período ouve em que o alvinegro valadarense esteve mergulhado em crise profunda, não só financeira, mas também de credibilidade. Notícia ruim corre o mundo, e no seio da “boleirada” vir para Valadares e atuar pela Pantera sintetizava contrato de risco. Havia a hipótese de não receber salários, luvas e “bichos”. Sua excelência Darcy Meneses, quando aqui chegou, trazia na carteira bilhete de Roberto César, com recomendação que não vale a pena registrar. O Democrata é muito grande.

O alerta e preocupação não mais se justificavam. Acabara de assumir a presidência do alvinegro da rua Osvaldo Cruz o empresário Almyr Vargas de Paula. De tradicional família valadarense. Filho do senhor João de Paula Costa. Irmão de Dalmy, Irany, Altair, Alair e Zezé. Sobrinho do saudoso Wilson Vargas, destemido vereador, carinhosamente chamado de “tio Wilson”. Sobrinho ainda de Ananias Vargas. E por que não dizer também do Tio Bira?

Não cabe aqui enumerar a trajetória empresarial de Almyr Vargas em sua pluralidade de atividades e funções desenvolvidas na terra que se diz de Serra Lima.

Como se diz na gíria, Almyr Vargas mudou a cara do Democrata. Deu-lhe visibilidade, credibilidade e competitividade. O valadarense e o democratense, em especial, passaram a se orgulhar do time do coração. Passaram a sonhar com conquistas, que vieram…

Juntamente com seu grupo, foi construído o Recanto da Pantera, sucesso por anos e anos, não cabendo aqui juízo de valor sobre sua desativação ou desaparecimento.

Promoveu ainda a construção-montagem das arquibancadas metálicas da rua Osvaldo Cruz e lance de arquibancadas de cimento atrás do gol da rua Afonso Pena, esta última destinada aos “geraldinos”, com aumento considerável da capacidade de público do Estádio Mammoud Abbas.

Teve prestígio e capacidade para promover a vinda a Valadares do então todo-poderoso João Havelange, por ocasião dos festejos alusivos às melhorias realizadas no Mamudão, quando também teve a ousadia de trazer VASCO DA GAMA e CR FLAMENGO para empolgante triangular aqui realizado.

Como gestor, montou equipes competitivas e disponibilizou todo tipo de condições para que os envolvidos pudessem exercer atividades e funções com equilíbrio e tranquilidade. Salários religiosamente pagos em dia, compromissos fiscais e tributários idem.

Tivemos o privilégio, por período curto, de trabalhar ao lado de Almyr Vargas no Democrata, na condição de diretor de futebol. Muito mais aprendemos do que produzimos. Ética, dignidade, respeito, comprometimento, seriedade e companheirismo perfilavam ao lado de uma pessoa extremamente exigente. Por demais organizada. Planejamento ímpar. Delegava e cobrava. Impunha confiança e respeito.

Almyr Vargas de Paula escreveu uma das mais ricas páginas da história do Esporte Clube Democrata de Governador Valadares. Temos memória curta. Não somos dados ao reconhecimento e agradecimento. Faz parte de nossa cultura. Poucas são as exceções.

Felizes aqueles, não importa se trabalhadores, atletas, dirigentes, integrantes da mídia ou torcedores, que conheceram e se relacionaram com a figura marcante, humana e descente de Almyr Vargas de Paula. Dirigente acima da média. Não encontrado nas prateleiras do atual futebol brasileiro.

(*) Ex atleta

N.B.1- As histórias envolvendo Almyr Vargas e alguns outros de sua época, no Colégio Ibituruna, são proibidas para menores.
N.B.2- A vida como ela é: Juvenário Araújo Filho, valadarense filho do saudoso goleiro JUVENAL e de dona Geralda, irmão de Jucélio sorriso, é candidato a vice-prefeito de Belo Horizonte.

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