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Strawberry Fields of Love

O Exército da Salvação é uma entidade muito antiga e bem famosa. Fundada em 1865, é uma das maiores instituições de caridade do mundo e atua em mais de uma centena de países, incluindo o Brasil. Provavelmente, os Beatles são mais famosos que o Exército da Salvação, embora isso importe muito pouco. A instituição nasceu em Londres; já a banda é de Liverpool, como bem sabemos. Ambos, portanto, são ingleses. Isso também não chega a despertar tanto interesse. Mas observe: o que realmente chama atenção é que a entidade e o grupo estão eternamente ligados por um hit psicodélico.

John Lennon costumava brincar no jardim de um orfanato ao lado da residência da tia dele, lá em Liverpool. Esse orfanato pertencia (adivinhe!) ao Exército da Salvação. E o nome desse orfanato era (adivinhe!) Strawberry Fields. Lá, segundo dizem, Lennon encontrava paz e harmonia. Daí, tempos depois, o mundo ganhou um clássico perene chamado Strawberry Fields Forever — em tradução livre: “Campos de Morango para Sempre”. A música foi gravada em 1966 e lançada em 1967. O resto é história.

Falar sobre o imenso legado dos Beatles é como chover no molhado. Além do mais, tem muita gente mais qualificada do que eu para discorrer a respeito. Mais fácil é dizer que, aqui no Brasil, duas décadas depois de Strawberry Fields Forever, foi lançada a canção Morango do Nordeste, uma composição da dupla pernambucana Walter de Afogados e Fernando Alves. Quando do lançamento, em 1987, a música tinha outro nome (Sonho dos Sonhos). Foi só em 1999 que ela foi rebatizada em um álbum de Lairton e Seus Teclados para estourar em todo o país, já em 2000. Depois, o som foi regravado por outros artistas e, embora ande esquecido, terá para sempre um espaço no rol de sucessos do nosso cancioneiro.

Voltando bastante no tempo e atravessando novamente o Atlântico, em 1957 — portanto, dez anos antes da canção dos Beatles e trinta anos antes de Morango do Nordeste —, o sueco Ingmar Bergman lançou o filme Morangos Silvestres, uma das notáveis joias da história do cinema. É bem verdade que o título de que mais gosto do Bergman é o irretocável (e obrigatório) O Sétimo Selo, também de 1957. Mas, hoje, estou aqui para falar de morangos.

Porque morangos, como já deu para notar, sempre tiveram um lugar de destaque no imaginário da cultura e do consumo (por falta de espaço, nem vou mencionar a bem-sucedida boneca/personagem Moranguinho). Já há alguns dias, por sinal — e de modo persistente —, o morango do amor tomou conta das redes sociais (de todo mundo) e dos paladares (de alguns). Trata-se de uma versão moranguesca da consagrada maçã do amor, com aquela casquinha dura feita de calda. Maçã que foi um tremendo sucesso na minha infância, especialmente quando tinha Exposição Agropecuária de Governador Valadares.

A trend, o viral, o auê, a febre em torno do morango do amor fez disparar o valor da fruta e os lucros de alguns que trabalham com doces. Mas não é nada além de mais uma manifestação do espírito do tempo encarnado em nossos corpos ansiosos e carentes. OK, o doce é bem gostoso. Mas não se trata disso. Estamos falando de uma dinâmica que gente do calibre da saudosa escritora Susan Sontag apontava como uma espécie de ilusão de sermos partícipes de um fluxo democrático e rico de informações, mas que não passa de uma lógica que nos conduz ao consumo intenso de conteúdo — morangos ou o que quer que seja —, que levará, enfim, ao consumo de coisas, em uma espiral que muitos já conhecemos bem, mas da qual é difícil se desvencilhar. “Você só colheu o que você plantou”, alerta um verso pinçado de Morango do Nordeste. É isso.

Em O Sétimo Selo, o cavaleiro desafia a morte em uma partida de xadrez para ganhar tempo e, na hipótese de vencer, manter-se vivo. Com frutas, bichos, comidas, memes e um sem-número de estímulos, o tabuleiro de vidro que carregamos nos desafia a fruir em feeds, timelines e afins, deslizando dedos sobre dados por uma superfície impregnada com as digitais do nosso escapismo. Somos um exército exausto, e muitos dos usuários já não demonstram chances de salvação.

“Porque eu estou indo para Strawberry Fields / Nada é real”, diz um trecho traduzido daquele toque Beatle. Quando a psicodelia soa tão crua e verossímil, é sinal de que a vida está perdendo o jogo.


(*) Jornalista e publicitário | Professor na Univale e poeta sempre que possível.
Instagram: @bob.villela | Medium: bob-villela.medium.com

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