Vou te fazer uma pergunta simples: quando foi a última vez que algo não saiu como você queria e você ficou realmente de boa com isso? Provavelmente faz tempo.
A verdade é que a gente anda meio “alérgico” à frustração. E não é só drama ou falta de força de vontade, não. Tem bastante psicologia por trás disso, e também tem muito do mundo em que a gente vive hoje.
Nosso cérebro, por exemplo, funciona numa lógica bem básica: ele adora recompensa rápida. Cada vez que algo dá certo, como uma mensagem respondida na hora, um pedido que chega rápido ou um plano que funciona, a gente ganha um pequeno “prêmio químico” ali dentro. A dopamina entra em cena. O problema é que o cérebro aprende rápido. Ele começa a esperar que tudo funcione assim: rápido, fácil e do jeito que a gente quer.
Aí, quando a realidade entra em cena, e ela sempre entra, o choque vem forte.Porque a vida… bom, a vida não funciona no modo instantâneo.E tem mais um detalhe importante: a forma como a gente foi aprendendo a lidar com desconforto. Muita gente cresceu sendo protegida da frustração, ou então aprendendo que sentir coisas difíceis era algo a evitar. Resultado? A gente até virou adulto, mas sem tanto treino emocional para lidar com o “não”, com o erro, com o plano que desanda.
É como se alguém tivesse te ensinado a dirigir só em estrada reta e, de repente, você tivesse que encarar uma serra cheia de curva.
Outro ponto que pesa é a comparação constante. Você abre o celular e parece que todo mundo está acertando, prosperando, sendo feliz o tempo todo. A psicologia chama isso de viés de comparação social. A gente compara o nosso bastidor com o palco dos outros. E aí, quando algo dá errado na nossa vida, não é só frustração, vira quase um sentimento de inadequação. Aquela pergunta silenciosa aparece: por que só comigo?
Mas deixa eu te contar uma coisa que às vezes a gente esquece: a frustração não é um erro do sistema. Ela é o sistema.Na psicologia do desenvolvimento, existe uma ideia importante: a capacidade de tolerar frustração é uma habilidade que se constrói. Não nasce pronta. E ela é essencial para coisas como resiliência, autocontrole e até autoestima de verdade, aquela que se sustenta mesmo quando algo dá errado.
Ou seja, sentir frustração não é o problema. Fugir dela o tempo todo é que complica.Porque quando a gente evita qualquer desconforto, a mensagem que o cérebro aprende é que aquilo é perigoso e que não damos conta. E aí, na próxima vez, a reação vem ainda mais intensa. É um ciclo.
Agora, quando a gente começa, aos poucos, a ficar ali, sentir o incômodo, entender o que aconteceu e ajustar a rota, algo muda. O cérebro aprende outra coisa: não foi como eu queria, mas eu aguento.E isso muda o jogo.
Não significa virar uma pessoa fria ou alguém que aceita tudo sem reagir. Significa não desmoronar toda vez que a vida não segue o roteiro.
No fim, talvez a questão não seja como parar de se frustrar, porque isso não vai acontecer, mas como se tornar alguém que consegue atravessar a frustração sem se perder de si mesmo.E isso, felizmente, dá para treinar. Um pouco por dia, nas pequenas coisas: no plano que muda, na resposta que não vem, no resultado que não chega.
Não é confortável. Mas, sendo bem honesto, quase nada que faz a gente crescer é.
(*) Psicóloga, pós graduada em Neuropsicologia pela Unifesp | CRP 04/62350
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