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Onde dois ou três se reúnem:  arquitetura como expressão da fé

FOTO: Josie Nader

“Porque onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, ali eu estarei.” (Mateus 18:20). A igreja nasce antes do edifício. Ela surge no encontro, na união de pessoas reunidas em torno da fraternidade e da Palavra de Deus. Antes de qualquer parede, antes de qualquer desenho arquitetônico, a igreja é presença compartilhada, é comunidade, é vínculo humano.

Quando os portugueses chegaram ao Brasil, a primeira construção simbólica não foi uma casa, um forte ou um mercado. Foi uma missa, celebrada ainda em terra aberta e sem templo. Esse ato inaugural revela algo essencial: a igreja antecede a cidade, mas, com o tempo, passa também a organizá-la.

Ao longo da história brasileira, muitas cidades nasceram a partir desse eixo simbólico. Em Governador Valadares, esse processo também se manifesta: a cidade se desenvolveu em torno de sua catedral, que se tornou referência urbana. No dia 30 de janeiro, ao completar 88 anos, Governador Valadares reafirma essa relação entre fé, arquitetura e cidade.

Em Ouro Preto, essa relação entre fé, arquitetura e cidade ganha contornos ainda mais intensos. A talha dourada em ouro, a ornamentação exuberante e os interiores ricamente trabalhados transformaram os templos em verdadeiras obras de arte. A arquitetura dessas igrejas ornamentais assume um papel pedagógico e sensorial. Ela comunica por meio da beleza. Conduz o olhar, provoca o silêncio, desperta o sentimento.

Em um domingo, durante uma missa celebrada pelo padre Paulo na Paróquia Cristo Redentor, da qual estive presente, uma frase sintetizou essa ideia com delicadeza: “Te agradeço, Senhor, por todas as coisas bonitas deste mundo.” Essa fala revela algo profundo: a beleza também é adoração. Uma igreja bonita, seja ela simples ou ornamentada, também é um gesto de louvor.

Quando se diz que Deus é o arquiteto do mundo, não se trata apenas de uma metáfora. Trata-se da maior obra já concebida. As cores dos pássaros, a textura da terra, o desenho das montanhas, a luz atravessando o céu — tudo isso compõe uma arquitetura perfeita, anterior a qualquer projeto humano.

Diante disso, a arquitetura das igrejas se revela como uma tentativa humana de traduzir o divino em espaço. Uma forma de materializar o invisível. Porque, no fim, reunir pessoas, construir beleza e contemplar o mundo talvez sejam apenas diferentes maneiras de expressar a mesma coisa: presença.


(*) Arquiteta e urbanista Instagram: @marianatorresarq | Telefone: (33) 99914-9198

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