Normalidade

FOTO: Freepik

O despertador toca, o cachorro late e o gato canta (no telhado). A buzina acorda.

O padeiro se põe cedo, para expor o pão quentinho, com e sem glúten. Já os glúteos seguem arrastando multidões na TV sintonizada, ou nas conexões wi-fi.

Dois cascos vazios de cerveja importada são recolhidos pelo gari de roupa com faixa reflexiva, animando as reflexões de quem abre a porta principal dos Alcoólatras Anônimos.

Tudo quase anônimo.

O sex shop vende milagres para parte do coral, que se apresenta às vinte horas, na Praça Central, onde a Prefeitura enfeitou.

A bicicleta faz rebeldia no meio do asfalto e chateia motores ranzinzas.

O choro recolhe um corpo querido na capela, e do outro lado da rua, os risos pulam da maternidade, toda pintada de verde a branco.

O carteiro entrega boletos, contabilizando as horas-extras para o feriado.

A escola segue seu duro curso, igual a água fluoretada que brota das torneiras.

O cowboy que vendia cigarros morreu de câncer (no pulmão).

Hollywood acena da Lua, enquanto um ou outro persevera em Marte.

Bate panela, bate cabeça, bate biela, bate, abate. Socorre um abade, o abade. Corre!

O errante foge da polícia. A polícia foge do errante. No caminho torto as gentes se escondem, até tudo se ajeitar.

No cair da noite, tem briga no bar.

Corpos e ideias transitam entre sinais, saltam um buraco, caem no bueiro.

O avião pousa, o trem parte. O pobre, nada.

Nada no rio sujo, com os brilhos do minério.

O Papa pede para a humanidade construir pontes e a gente levanta muros, como bons cristãos, graças a Deus.

O poeta não sabe se vai ou se fica… a ver navios. Um cruzeiro, um cruzado, um conto de réis para a conta virtual do malabarista de rua.

Tudo certo.

Os esquizofrênicos tomam conta do bom senso, na mais pura normalidade…

mARCos sANTiAGo, em santiagoseven@bol.com.br

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