GOVERNADOR VALADARES – As mudanças climáticas já fazem parte da rotina de quem vive da pecuária. Períodos de seca mais longos, chuvas irregulares, aumento das temperaturas, incêndios e eventos extremos têm alterado a dinâmica da produção no campo e exigido novas estratégias dos produtores rurais. Para a pecuarista, advogada, consultora e pesquisadora Amanda Purger, os impactos do clima na atividade são uma realidade que precisa ser enfrentada com planejamento e soluções adaptadas a cada território.
Filha e neta de pecuaristas do interior da Bahia, Amanda construiu sua trajetória unindo a experiência no campo ao conhecimento acadêmico. É mestre em Ciências Jurídicas pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), possui MBA em Direito do Agronegócio, é técnica em Agronegócio pelo SENAR e doutoranda em Ciências Ambientais pela Universidade Federal do Pará (UFPA), em parceria com o Museu Paraense Emílio Goeldi e a Embrapa Amazônia. Ela também atuou como professora universitária, gestora acadêmica e Secretária Municipal do Verde e Meio Ambiente de Paragominas, desenvolvendo trabalhos ligados à governança climática, desenvolvimento territorial e soluções de baixo carbono para a Amazônia.
Segundo Amanda, um dos principais desafios da pecuária atualmente é lidar com um cenário climático cada vez mais imprevisível. A pesquisadora destaca, no entanto, que os impactos não acontecem da mesma forma em todas as regiões brasileiras. Cada bioma e território possui desafios específicos. “O Pantanal enfrenta questões distintas da Amazônia, que por sua vez são diferentes do Cerrado ou de outras regiões produtoras. Por isso, as soluções precisam considerar a realidade local e ouvir quem vive esses desafios diariamente”, afirma.
Gestão do risco climático vira prioridade
Com as alterações no clima, os produtores rurais precisam lidar não apenas com os impactos diretos na produção, mas também com a necessidade de administrar riscos. Amanda explica que a redução da disponibilidade de água, a degradação das pastagens em períodos de estiagem, o aumento dos incêndios e a pressão de pragas e doenças exigem investimentos em adaptação. “A variabilidade climática torna mais difícil o planejamento da produção. O produtor precisa tomar decisões de longo prazo em um cenário cada vez mais incerto, o que aumenta a importância da assistência técnica, da pesquisa, do crédito rural adequado e de políticas públicas voltadas à adaptação climática”, destaca.
A pesquisadora cita que, nas escutas realizadas pelo projeto Vozes da Pecuária, produtores relatam impactos cada vez mais intensos, com aumento dos riscos e dos custos da atividade. Entre as medidas necessárias estão investimentos em infraestrutura, como açudes, estruturas de combate a incêndios, além de melhores condições de crédito e ampliação do acesso ao seguro rural
Análise entre pecuária e meio ambiente
A pecuária frequentemente aparece no debate ambiental como uma das atividades associadas aos impactos sobre o meio ambiente. Para Amanda, essa discussão precisa considerar diferentes aspectos. “Essa percepção simplifica uma discussão que é mais ampla. Toda atividade humana gera algum tipo de impacto ambiental, e o ponto central é compreender a natureza desse impacto, sua intensidade e a forma como ele é gerenciado”, afirma.
Segundo ela, a pecuária pode gerar impactos quando realizada sem planejamento e manejo adequado, mas também existem produtores que investem em conservação ambiental, recuperação de áreas degradadas e proteção dos recursos naturais. “Há muitos produtores que conservam áreas nativas, recuperam pastagens, protegem nascentes e investem em sistemas mais eficientes. O desafio é fazer com que todos os modelos produtivos avancem nessa direção, produzindo alimentos com menor impacto e maior responsabilidade sobre os recursos naturais”, explica.
Sustentabilidade como oportunidade econômica
Entre as práticas que podem contribuir para uma pecuária mais sustentável estão a recuperação de pastagens degradadas, integração lavoura-pecuária-floresta, manejo eficiente da água, melhoria genética dos animais, suplementação estratégica e aumento da produtividade em áreas já abertas.
Para a pesquisadora, sustentabilidade precisa estar ligada à realidade econômica do produtor. “A sustentabilidade não é uma lista de exigências externas. Ela precisa fazer sentido para o produtor e para o território. Os produtores estão muito mais dispostos a adotar mudanças quando conseguem enxergar ganhos ambientais, econômicos e sociais ao mesmo tempo”, conclui.










