GOVERNADOR VALADARES – Vivemos na era em que enviar mensagens atravessa continentes em milésimos de segundo. Podemos ver o rosto de alguém pelo celular, acompanhar a vida inteira de amigos, familiares e desconhecidos em fotos, vídeos e stories. Nunca estivemos tão expostos, tão acessíveis, tão presentes, ao menos virtualmente. Ainda assim, cresce a sensação de solidão e distanciamento emocional. Paradoxalmente, quanto mais nos conectamos por telas, menos nos conectamos de fato uns com os outros.
As redes sociais criaram a ilusão de intimidade contínua. Acompanhamos aniversários, conquistas, viagens e crises alheias como espectadores de um reality show sem fim. Sabemos o que as pessoas fazem, mas não necessariamente o que sentem. Interações foram reduzidas a curtidas, emojis e frases rápidas, respostas instantâneas que preenchem tempo, mas não vínculos.
O resultado é uma geração que conversa muito, mas se escuta pouco. Que publica tudo, mas revela quase nada. Que acumula contatos, mas raramente constrói relações profundas. A hiperexposição tornou tudo público, mas a intimidade, essa sim, virou artigo de luxo.
Segundo especialistas, o problema não está na tecnologia, mas no modo como a utilizamos. Conversas presenciais com pausas, olhares, linguagem corporal e vulnerabilidade estão sendo substituídas por diálogos fragmentados, onde cada um fala no seu tempo, sem interrupções, sem desconforto… e sem profundidade. A comunicação digital facilita, mas também “protege”: evita conflitos, evita demonstrar fraqueza, evita o real.
A intimidade, no entanto, exige imperfeição. Exige presença. Exige o risco de ser mal interpretado, de ser questionado, de ser visto por inteiro. Nada disso cabe muito bem num chat de aplicativo. O desafio contemporâneo é resgatar o encontro humano dentro de um mundo que se acostumou com relações rápidas, práticas e descartáveis. Significa colocar o celular de lado em conversas importantes, permitir silêncios, sustentar olhares, estar verdadeiramente presente. Intimidade não nasce de conexão Wi-Fi, e sim de disponibilidade emocional.
Talvez seja hora de repensarmos o que realmente significa “estar conectado”. No fim das contas, conexão boa mesmo não depende de Wi-Fi. Depende de gente querendo se encontrar de verdade, mesmo que seja um pouquinho por vez.






