GOVERNADOR VALADARES – Domingo, dia 30 de outubro de 2022. O jornalista William Bonner está em estúdio à frente da cobertura das apurações do segundo turno das eleições, ao lado da colega Renata Lo Prete. Números, gráficos, comentários, resultados, aquela coisa toda que conhecemos bem. Em um determinado momento, o apresentador resolve beber uma água e ouve-se (não se vê) aquele barulhinho indefectível de uma latinha abrindo, que costuma ser associado ao ato de abrir uma cerveja. Talvez isso se deva à bem-sucedida campanha de Brahma com o clássico “Tsssss”, feita pela agência F/Nazca em 1999.
Porém, no caso de Bonner, naquele 30 de outubro de 2022, era água mesmo. O apresentador fez questão de esclarecer tudo para o público. Se não estou enganado, no retorno de um intervalo comercial ele exibiu uma latinha de água, explicou que na Globo a água era em lata e, em tom de descontração, afirmou que não beberia cerveja em serviço. Foi um alívio cômico para um domingo de apreensão em ambos os polos do país. E ninguém imaginava que três anos depois Bonner estaria deixando a bancada do mais famoso telejornal do Brasil.
Ao mesmo tempo, ninguém imaginava que aquele barulhinho de latinha sendo aberta ecoaria depois de 36 meses em um dos intervalos mais caros da televisão brasileira. Sim, no último dia 31 de outubro, após Bonner dar seu derradeiro “boa noite” no comando do Jornal Nacional, algumas marcas prestaram belas homenagens ao jornalista. Uma delas foi a Amstel, que, em um lance de genialidade, reproduziu o som do abrir da lata e cravou o seguinte texto nas telas de todo o país: “Desta vez é cerveja mesmo. Boa noite.”. A criação foi da AlmapBBDO e os aplausos são de todos que amam publicidade feita com bom humor, respeito e sagacidade.
Bonner ficou 29 anos à frente do Jornal Nacional. É muito tempo. Muita água e muitas notícias — e latinhas — passaram por baixo e por cima da ponte nesse período. “Vinte e Nove” (por extenso) é uma bela música da lendária banda Legião Urbana, cujo líder Renato Russo faleceu — acredite — há 29 anos. Foi em 11 de outubro de 1996. Bonner estava na bancada do Jornal Nacional daquele dia para repercutir a morte do poeta e rememorar a trajetória de um dos grandes responsáveis por colocar o rock de Brasília em uma prateleira de destaque da música nacional.
A capital federal é o berço de célebres bandas, mas é famosa no mundo inteiro pela ousadia de Oscar Niemeyer e Lúcio Costa. Formada por quadras, a cidade não tem esquinas. Já a nossa capital mineira, que é formada por ruas e quarteirões, tem muitas, muitas esquinas. Uma delas fica no bairro de Santa Tereza e é a mais emblemática da música brasileira, um cruzamento que reuniu arquitetos e paisagistas de uma sonoridade que mudou a MPB. Quando Milton Nascimento, Lô Borges e um timaço incomparável deram ao mundo o álbum “Clube da Esquina”, em 1972, a curva do tempo se arrepiou e os padrões globais de excelência musical subiram uma ladeira mágica.
Lô Borges — gênio da raça, essa fábula tão representativa do animal mineiro, que consegue ser monstro divino e bicho do mato, que pode ser do mundo e de uma esquina qualquer — nos deixou dois dias após Bonner pendurar as chuteiras no JN. O artista foi muito além do Clube. Produziu até o fim da vida e deixou bastante material pronto. Com seu álbum homônimo (o “disco do tênis”), também de 1972, pisou em terrenos nunca explorados para que a gente entendesse nossa vocação para uma criatividade intuitiva, de arroubos, sonhos e maluquice, mas sem abrir mão de uma sublime elegância. A canção de Lô não toca, flutua.
“Quando você deixou de me amar/ Aprendi a perdoar/ E a pedir perdão”, diz a letra de “Vinte e Nove”, da Legião Urbana. Quando é que um país “deixa de amar” suas belezas? Quando elas passam a fazer parte da paisagem da janela? Quando são solapadas pela indústria da novidade? Quando ficam 29 anos (ou muito mais do que isso) “fazendo a mesma coisa”? E quando é que “pedimos perdão”? Quando alguém diz estar cansado e abre o coração? Quando alguém se aposenta? Quando alguém morre? “Sonhei que eu nunca existi/ E vi que eu nunca sonhei”, refletia Lô Borges em “Não Foi Nada”, há mais de 50 anos.
Na perfeita “Um Girassol da Cor de Seu Cabelo”, o mesmo Lô canta assim: “Eu só preciso ter você, por mais um dia/ Ainda gosto de dançar/ Bom dia…”. Teremos a obra dele por quantos bons dias quisermos. Que saibamos descobrir e desfrutar. A propósito, abra a latinha da sua bebida preferida e celebre a legião de talentos que temos na música, no cinema e em todo o cenário criativo deste imenso país. E tente não adiar os momentos de prestigiar a melodia doce que há na vida. Afinal, a gente está sempre na esquina de um milagre com o fim de algo.
Tsssss.
Boa noite.
(*) Jornalista e publicitário. Professor na Univale e poeta sempre que possível. Instagram: @bob.villela | Medium: bob-villela.medium.com
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