Existe um tipo de sofrimento que quase sempre acontece em silêncio. Ele não deixa marcas visíveis, não aparece em exames e, por isso mesmo, costuma ser desvalorizado. A ansiedade ainda é tratada por muita gente como exagero, falta de controle ou simples drama. Mas quem sente sabe que não há nada de pequeno ou inventado nisso.
A ansiedade pode começar de forma discreta. Uma preocupação que não vai embora, um aperto no peito sem explicação clara, a sensação constante de que algo está prestes a dar errado. Aos poucos, o corpo entra em estado de alerta permanente. O coração acelera, o sono falha, a mente não descansa. Até as tarefas mais simples parecem exigir um esforço enorme.
De fora, nem sempre é possível perceber. A pessoa continua trabalhando, estudando, sorrindo e cumprindo compromissos. Por dentro, porém, vive uma batalha diária para manter tudo em ordem. E talvez seja justamente essa capacidade de seguir funcionando que faz com que muitos desacreditem da intensidade do que ela sente.
Não é raro ouvir comentários que ferem mais do que ajudam. Gente bem intencionada que diz que é só relaxar, parar de pensar nisso ou ser mais forte. Como se fosse uma escolha. Como se bastasse decidir e, de repente, tudo se resolvesse. A verdade é que quem vive com ansiedade frequentemente sabe que seus medos são maiores do que a situação exige, mas ainda assim não consegue desligar esse alarme interno.
Quando esse sofrimento é tratado como frescura, algo se quebra. A pessoa passa a duvidar de si mesma. Sente culpa por não conseguir dar conta de tudo com leveza. Esconde o que sente para não parecer fraca. E, assim, o silêncio cresce.
Falar sobre ansiedade com seriedade não significa transformar cada preocupação em doença. Significa reconhecer que a saúde mental é parte inseparável da saúde como um todo. Se uma dor física merece atenção, o sofrimento emocional também merece. Um não é mais legítimo do que o outro.
Os transtornos de ansiedade estão entre as condições mais comuns da atualidade e atingem pessoas de todas as idades e perfis. Gente forte, responsável e dedicada também adoece. Muitas vezes, são justamente essas pessoas que mais demoram a pedir ajuda, porque aprenderam que precisam aguentar tudo sozinhas.
Talvez o primeiro passo para mudar esse cenário seja simples. Escutar mais e julgar menos. Em vez de diminuir a dor do outro, oferecer presença. Em vez de dizer que passa, perguntar como ajudar. Pequenos gestos podem fazer uma diferença enorme para quem já se sente sobrecarregado.
Ansiedade não é sinal de fraqueza. É um sinal de que algo dentro de nós precisa de cuidado. E todo sofrimento que pede cuidado merece ser levado a sério. Porque saúde mental não é moda, não é exagero e não é frescura. É parte da vida real, da vida de todos nós.
Psicóloga, pós graduada em Neuropsicologia pela Unifesp – CRP 04/62350
As opiniões emitidas nos artigos assinados são de inteira responsabilidade de seus autores por não representarem necessariamente a opinião do jornal.







