Nos parece que o Brasil sempre conviveu com crise durante seus 525 anos de existência. Desde a chegada da frota portuguesa em 1500 aqui, sempre foi o país dos problemas das soluções adiadas. Uma prova disso é que sempre sentiu intensamente os efeitos das crises econômicas das nações mais desenvolvidas, isto é, mimetizou suas dificuldades, sempre se adapta às decisões das nações mais poderosas, com perda de parte de sua identidade.
Não faz muito tempo a turma fazia passeata com cartazes dizendo FORA FMI, mas hoje parece chique o país emprestar dinheiro para nações menos favorecidas. Sinal dos tempos, é dialético, grande é a alegria do povo brasileiro em compartilhar a mudança. Historicamente, nossa tolerância com crises é resultado do vírus que nos infectou, conhecido cientificamente como “CRISIS DEMORADUS”, haja vista ainda que o país é um gigante adormecido, e continua sendo o país de um futuro que nunca chega, é muito demorado, seu PIB estacionou nos US$ 2,1 trilhões e não sai dali há anos.
As crises sucessivas pelas quais o país já superou geraram outras mais, como por exemplo a crise do jeitinho, do cartão de crédito, a crise ética, do empréstimo consignado, ambiental, a crise das crises e por aí vai. Incorporadas, criamos e denominamos nomes científicos para as crises, sendo que tudo não passa de uma grande brincadeira.
• Pelo aperto que passa e pelo jogo de cintura que faz para sobreviver, o povo brasileiro demonstra ser demasiadamente criativo (coincidência ou não, CRIativo e CRIse têm o mesmo prefixo CRI), por isso não é novidade afirmar que o brasileiro aceita tudo monotonamente. Nome científico desta crise: “SOCIETATIS PERMISSIVIS”, ou na variação do vírus, “SOCIETATIS MONOTANUS”.
• Após alguns estudos e profundas avaliações, cientistas sociais chegaram à conclusão de que, apesar de todas as crises e dificuldades financeiras, somos um povo alegre e feliz. Nome científico da crise: “POAVUS MASOQUISTIS”.
• A invenção de planos mirabolantes por economistas, carga tributária pesada, sistema político com prazo de validade vencido, falta de reformas de base e oscilações de moedas internacionais vão nos empurrar ainda mais para crises intermináveis. Quando a imprensa desvenda algum escândalo, nota-se que tem sempre algum privilegiado aprontando com o erário, e com o tempo a notícia acaba democratizada. Nome científico dessa crise: “BURRUS NAGUAES”.
• No momento em que a sociedade brasileira está assustada com o aumento da violência, nas grandes cidades, principalmente entre grupos organizados, juntamente com os de colarinho branco, os privilegiados podem ser blindados, o que leva à reflexão sobre o país que o brasileiro está vivendo. Nome científico: “CRISIS SOÁPARA POBRIS”.
• Com todas essas crises, fechamos mais um capítulo da nossa história, sempre na esperança de que um dia o Brasil prospere economicamente, dando mais oportunidades principalmente para os jovens, que o analfabetismo seja erradicado nos próximos cinco anos, que a mortalidade infantil caia a níveis satisfatórios, que os maus hábitos da cena política sejam banidos, que não falte moradia, saúde e educação, que o saneamento básico atenda a todas as cidades, que o nosso IDH atinja os 0,900 pontos, que a fome desapareça definitivamente, que as estradas sejam transformadas em tapetes negros duplicados, que todos sejam atendidos dignamente nos hospitais sem filas e nunca em corredores, que possamos viver em segurança e que a expressão “gigante adormecido” passe definitivamente a ser uma figura viva. Nome científico: “SONHUS DELIRANTIS”.
(*) Crisolino Filho é escritor, advogado e bibliotecário | E-mail: crisffiadv@gmail.com | Whatsapp: (33) 98807-1877
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