Ciaat discute recuperação de nascentes na bacia do rio Doce

Marcus Polignano é presidente do Comitê da Bacia do Rio das Velhas, um dos primeiros a chamarem a atenção para a importância do cuidado com as nascentes. Doutora em Ciência Florestal, Bruna Dias vem adotando várias tecnologias sociais de recuperação ambiental na fazenda da sua família

A importância das nascentes na recuperação das bacias hidrográficas. Esse o tema com o qual o Centro de Informação e Assessoria Técnica (Ciaat) retoma o projeto Momento Ambiental, que, desde 2010, vem discutindo e apresentando alternativas para a solução dos graves problemas de degradação ambiental existentes na bacia hidrográfica do rio Doce. O evento será realizado no auditório do Campus Governador Valadares do Instituto Federal de Minas Gerais (IFMG), parceiro histórico do projeto, a partir das 18h30 do dia 19, terça-feira.

Para tratar do tema, o Momento Cultural apresentará uma palestra com o presidente do Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio das Velhas, o professor Marcus Vinícius Polignano, que é mestre em Epidemiologia e doutor em Pediatria Social. Polignano é um dos fundadores e coordenador do Projeto Manuelzão, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), na qual é professor do Departamento de Medicina Preventiva e Social da Faculdade de Medicina.

Antecipando a palestra, haverá um relato de experiência da engenheira e doutora em Ciência Florestal Bruna Anair Souto Dias, professora da Universidade Federal do Piauí, que vem adotando várias tecnologias sociais de recuperação ambiental na fazenda da sua família, situada no município de Marilac. Entre as tecnologias utilizadas na Fazenda Cantinho do Céu está a abertura de “barraginhas” consorciadas com sulcos em curvas de nível.

“Tínhamos, aqui, um morro completamente limpo de vegetação e com uma enorme voçoroca. Fizemos curvas de nível para desviar a água das chuvas do canal escavado pelas enxurradas e, ao mesmo tempo, implantamos pequenas barragens nos sulcos que fomos abrindo para acumular a água. Com isso, garantimos o processo de infiltração. Um ano depois de implantado o processo, várias nascentes da parte baixa do terreno, que tinham secado, voltaram a ser perenes”, explica a professora.

CBH Rio das Velhas

Por sua vez, Marcus Polignano falará sobre o sistemático trabalho de cadastramento, diagnóstico e valorização de nascentes que vem sendo feito pelo CBH Rio das Velhas. O comitê foi um dos primeiros, no país, a chamar a atenção para a importância do cuidado com as nascentes para garantir a recuperação das bacias hidrográficas. “Ainda que consigamos tirar todo o esgoto dos cursos d’água, se não houver nascentes produzindo água limpa de qualidade para reabastecer os rios, pouco adiantará o esforço para a despoluição”, resume o médico.

Segundo o coordenador geral do Ciaat, Antônio Carlos Linhares Borges, o momento é oportuno para discutir o tema do cuidado com as nascentes porque a região, após o acidente com a barragem de rejeitos em Mariana, está passando por um intenso processo de recuperação ambiental, o maior do mundo em extensão territorial e volume de trabalho, que inclui cadastro de nascentes e recuperação vegetal de áreas degradadas.

“Esse é o momento de toda a sociedade se unir para apresentar ideias e sugestões que façam com que esse trabalho de recuperação se torne efetivo e com benefícios para toda a população, seja pela geração de renda, de conhecimento e de qualidade de vida”, frisou.

O Momento Ambiental

O projeto Momento Ambiental teve início em 2010, com discussões realizadas junto aos produtores rurais da região do Vale do Rio Doce, pelo Ciaat, enquanto aplicava a metodologia Desenvolvimento de Comunidades Sustentáveis (DCS). Esse trabalho promoveu a utilização de tecnologias sociais para garantir a potencialização dos meios de produção econômica com o devido respeito à preservação ambiental visando garantir a sustentabilidade dos recursos naturais, como a água. A adesão de várias entidades e órgãos relacionados ao meio ambiente e à produção para debater alternativas sustentáveis marcou o início do Momento Ambiental.

Por fim, em 2014, após vários encontros e estudos realizados desde os anos anteriores, mais de 30 entidades assinaram um documento que reconhecia o fenômeno da “erosão” como o elemento principal da degradação ambiental. Também constatou-se que a maior parte do problema era causada pelo sistema de pastejo extensivo, associado ao uso do fogo nas pastagens. A supressão da cobertura vegetal ocasiona a perda de solo de superfície, com exposição ampla de camadas inferiores de solo, o carreamento de terras pelas chuvas e o assoreamento de nascentes, córregos e rios da região.

O documento comum foi compartilhado com todas as esferas de governo, indicando ações de desenvolvimento sustentável para o rio Doce, com a produção de programas e projetos para implementação. “Algumas das tecnologias sociais defendidas nesse documento foram testadas com alto grau de sucesso pela professora Bruna Dias e por outros produtores da região. Precisamos, agora, mostrar essas experiências positivas para que outras pessoas possam utilizar e criar uma rede de ação para recuperar a bacia do rio Doce. Nesse processo, é fundamental a participação dos jovens estudantes da área ambiental, que vão continuar esse trabalho no futuro. Por isso, priorizamos a nossa atuação junto ao IFMG e outras escolas interessadas em contribuir com a preservação ambiental”, concluiu o coordenador do Ciaat.