BRASÍLIA – Os Correios fecharam o primeiro trimestre de 2026 com prejuízo de R$ 3,16 bilhões, resultado 82,3% superior ao registrado no mesmo período de 2025, quando as perdas somaram R$ 1,72 bilhão. O balanço divulgado pela estatal mostra que a empresa continua enfrentando dificuldades financeiras mesmo após o início de um plano de reestruturação.
O resultado negativo ocorre após os Correios acumularem prejuízo recorde de R$ 8,5 bilhões em 2025, o pior desempenho da história da companhia. A receita bruta da estatal alcançou R$ 4,04 bilhões no primeiro trimestre deste ano, uma queda de 2,2% em relação ao mesmo período do ano passado. Já as despesas financeiras chegaram a R$ 985 milhões, alta de 248%, enquanto o patrimônio líquido negativo atingiu R$ 16,2 bilhões.
Segundo a empresa, o prejuízo foi provocado por uma combinação de queda nas receitas, aumento das despesas financeiras e revisão das provisões para processos judiciais. O principal impacto extraordinário veio do reconhecimento de uma provisão de R$ 1,06 bilhão relacionada a ações trabalhistas. Na prática, trata-se de uma reserva contábil criada para cobrir possíveis perdas em processos que ainda tramitam na Justiça.
A reclassificação desses passivos já vinha sendo defendida por órgãos de controle, como o Tribunal de Contas da União (TCU) e a Controladoria-Geral da União (CGU). Com a atualização, o valor total reservado para contingências judiciais subiu de R$ 3,6 bilhões no fim de 2025 para R$ 4,66 bilhões em março deste ano.

Quedas nas receitas
A receita dos Correios continuou em queda nos primeiros meses de 2026. O segmento de encomendas movimentou R$ 2,2 bilhões, retração de 5,5% em relação ao primeiro trimestre de 2025. As postagens internacionais registraram receita de R$ 156 milhões, com queda expressiva de 60,3%. Já o serviço de mensagens, que inclui cartas e documentos, gerou R$ 1,2 bilhão, enquanto outras receitas somaram R$ 465 milhões.
A redução das receitas ocorre em meio ao aumento da concorrência no setor de logística e à diminuição da demanda por serviços postais tradicionais. Apesar disso, a empresa conseguiu reduzir parte dos custos operacionais. Os gastos com produtos e serviços caíram de R$ 4,01 bilhões para R$ 3,7 bilhões, redução de 7,6%. As despesas com pessoal passaram de R$ 2,8 bilhões para R$ 2,7 bilhões, queda de 4,1%.
Despesas
De acordo com os Correios, o Programa de Demissão Voluntária (PDV), implantado em 2024, contribuiu para a redução dos gastos com pessoal. No entanto, as despesas financeiras continuaram pressionando os resultados. O valor saltou de R$ 283 milhões no primeiro trimestre de 2025 para R$ 985 milhões no mesmo período deste ano.
O aumento está relacionado aos financiamentos contratados pela estatal para reforçar o caixa e sustentar o plano de recuperação financeira. Outro indicador que apresentou forte crescimento foi o das indenizações pagas a clientes por atraso na entrega de encomendas. Em março de 2025, esse valor era de R$ 2 milhões. Um ano depois, chegou a R$ 30,5 milhões, mais de 15 vezes superior.
Segundo a empresa, o aumento das indenizações reflete problemas operacionais enfrentados após a greve de funcionários ocorrida no fim de 2025.
Plano de reestruturação
Para tentar recuperar o equilíbrio financeiro, os Correios executam um plano de reestruturação desde que Emmanoel Rondon assumiu a presidência da estatal, em setembro de 2025.
As medidas adotadas incluem redução de despesas administrativas, revisão de contratos, venda de imóveis sem uso operacional, modernização tecnológica, ajustes logísticos e busca por novas fontes de receita. Em 2025, a empresa também contratou um empréstimo de R$ 12 bilhões com garantia da União para regularizar passivos e financiar parte da reorganização financeira.
Embora tenha registrado lucro bruto de R$ 153,4 milhões, indicador que considera apenas receitas e custos diretos da operação, os Correios continuam pressionados por despesas administrativas, financeiras e judiciais. Diferentemente do lucro líquido, o lucro bruto exclui impostos e despesas fixas, como aluguel, material de escritório, publicidade e salários administrativos.
A meta da companhia é concluir o processo de reestruturação e voltar a apresentar resultados positivos a partir de 2027. Até lá, o principal desafio será reduzir o ritmo de crescimento das perdas e recuperar receitas em um mercado cada vez mais competitivo.

















