Pecuarista alerta para abuso patrimonial no campo e defende transparência na gestão do agro

FOTO: Arquivo Pessoal

GOVERNADOR VALADARES – A pecuarista, mangalarguista e empresária Flávia Raucci Facchini tem se consolidado como uma das vozes ativas na defesa da transparência e da governança no agronegócio brasileiro. Integrante do grupo Forbes Mulher Agro e colunista da Forbes Agro, ela está à frente da Agroalvorada, liderando as fazendas Alvorada, Fortaleza e São José, com foco em gestão eficiente, sustentabilidade e continuidade do legado familiar.

Com uma trajetória profissional que começou fora do campo, Flávia atuou por dez anos em consultório de psicologia e por 14 anos no varejo de roupas infantis. Após encerrar as lojas, decidiu ingressar no agronegócio ao lado do pai, dedicando-se à pecuária no Mato Grosso e à criação de cavalos da raça Mangalarga, no interior de São Paulo. Com a morte dele, assumiu os negócios da família e passou a investir em profissionalização, contratando consultorias e incorporando tecnologia à gestão das fazendas.

A experiência prática no campo e a vivência em disputas envolvendo patrimônio familiar levaram Flávia a se posicionar publicamente sobre um tema ainda pouco discutido: o abuso patrimonial no agro. Segundo ela, trata-se de um “crime silencioso”, que se instala de forma gradual e, muitas vezes, imperceptível. “O abuso patrimonial no agro acontece quando alguém controla, esconde ou desvia bens e rendimentos que não são só dele. Ele não começa com um grande golpe. Ele começa pequeno, disfarçado de normalidade. A pessoa começa a dificultar o acesso a informações, a esconder números e informações, e a criar dúvidas e insegurança na vítima”, explica.

De acordo com a pecuarista, o problema costuma evoluir com o tempo, podendo envolver manipulação de contratos, desaparecimento de receitas e até a criação de dívidas sem explicação. Em muitos casos, quando a vítima tenta reagir, enfrenta uma judicialização prolongada, com recursos sucessivos que desgastam emocional e financeiramente.

Os impactos, segundo Flávia, vão além das perdas financeiras. “A vítima passa a duvidar da própria percepção, viver em estado de alerta e se sentir sem saída. A vítima fica esgotada financeiramente e psicologicamente”, afirma. Ela também chama atenção para a vulnerabilidade de mulheres nesse contexto, especialmente em estruturas familiares tradicionais do agro, onde muitas vezes são afastadas da gestão e, consequentemente, do acesso às informações.

Para evitar esse tipo de situação, a empresária destaca a importância do conhecimento sobre o próprio patrimônio. “Quem não conhece, não protege. Um herdeiro precisa saber, no mínimo, o que existe de patrimônio, como ele está organizado, quanto entra e sai de dinheiro, se existem dívidas, quem decide e como decide”, orienta. Ao suspeitar de irregularidades, Flávia recomenda cautela e estratégia. “Começar a reunir documentos, formalizar pedidos de informação, guardar registros de tudo e buscar ajuda especializada o quanto antes. É importante entender: você não está ‘criando problema’, você está se protegendo”, ressalta.

Ao relembrar o período em que assumiu os negócios após a perda do pai, ela destaca que a falta de acesso prévio às informações foi um dos principais desafios. “Foi um momento de muita responsabilidade e também de despertar. Porque é nesse momento que você percebe o quanto informação e transparência fazem falta quando não foram construídas antes”, relata. Hoje, Flávia defende que o sucesso no campo vai além da produtividade. “O maior risco não está só fora, no mercado ou no clima. Ele pode estar dentro, quando existe concentração de poder, falta de transparência e ausência de governança. E foi essa vivência que me fez entender, na prática, como o abuso patrimonial se constrói e porque ele precisa ser combatido com informação, estratégia e posicionamento”, conclui a pecuarista.

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