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Nos trilhos da saudade: a reinvenção da Estrada de Ferro Bahia-Minas

Kissyla F. Pires by Kissyla F. Pires
28 de setembro de 2026
in SEM FRONTEIRAS
0
Nos trilhos da saudade: a reinvenção da Estrada de Ferro Bahia-Minas

Antiga Oficina Geral de Locomotivas da Estrada de Ferro Bahia-Minas - FOTO: Kissyla F. Pires

Entre túneis centenários, paisagens preservadas e histórias locais, rota de cicloturismo transforma o legado do “Baiminas” em motor de turismo e pertencimento.

GOVERNADOR VALADARES — São 340 quilômetros de caminhos que atravessam os vales do Jequitinhonha e do Mucuri, passando por cidades, distritos, cachoeiras, antigas estações ferroviárias e experiências que revelam diferentes aspectos da vida no interior de Minas Gerais. A convite do Sebrae Minas, a equipe do Diário do Rio Doce esteve na região para vivenciar parte desse percurso, entre Araçuaí e Teófilo Otoni.

Hoje, o antigo traçado da Estrada de Ferro Bahia-Minas pode ser percorrido de bicicleta, a pé ou de carro. Foi essa história que Milton Nascimento e Fernando Brant eternizaram em “Ponta de Areia”. “Ponta de areia, ponto final, da Bahia-Minas, estrada natural”, canta a música sobre a ferrovia que ligava o estado mineiro ao porto e ao mar. A antiga linha, conhecida pelos moradores como “Baiminas”, teve o fim decretado em 1966, mas permaneceu na memória de quem acompanhou a passagem dos trens.

Uma ferrovia que virou roteiro

Lançada pelo Sebrae Minas, a rota de cicloturismo liga Araçuaí, no Vale do Jequitinhonha, a Carlos Chagas, no Vale do Mucuri. O percurso acompanha os caminhos por onde passaram os trilhos da antiga Estrada de Ferro Bahia-Minas, que transportava cargas até Ponta de Areia, no Sul da Bahia. O percurso passa por seis municípios: Araçuaí, Novo Cruzeiro, Ladainha, Poté, Teófilo Otoni e Carlos Chagas. A rota também alcança distritos como Alfredo Graça, Queixada, Engenheiro Schnoor, Brejaúba e Francisco Sá, entre outros.

Trajeto em Engenheiro Schnoor, em Araçuaí, onde passava o trem que ligava Minas à Bahia
– FOTO: Kissyla F. Pires

Ladainha e os vestígios da ferrovia

Em Ladainha, parte da experiência pode ser feita de bicicleta. Segundo Natália Guedes, psicóloga e guia de turismo da rota, o percurso pelo município tem aproximadamente 13 quilômetros e reúne monumentos históricos e naturais.

“O percurso que vocês fizeram de bicicleta em Ladainha tem aproximadamente 13 km. Nesse trajeto, passamos por monumentos históricos e também por monumentos naturais, como a cachoeira, e tudo está muito bem preservado. Temos um túnel de aproximadamente 200 metros, mantido em sua originalidade. Ele foi construído com picaretas e explosivos. O corte na pedra é de tirar o fôlego, e esse percurso sempre traz uma energia muito bacana para a gente.”

Além do percurso de bicicleta, a cidade oferece um city tour pelos prédios ligados à antiga ferrovia. De acordo com Natália, essas estruturas são preservadas pela Prefeitura.

“Em Ladainha, também fizemos o city tour, passando pelos prédios da antiga ferrovia, que são preservados pela Prefeitura. Temos hoje o Cachotão, que, na época, foi o primeiro cinema inaugurado na região e estreou com o filme King Kong. Temos a oficina, que hoje virou uma quadra poliesportiva. Era ali que se fabricava desde o menor parafuso até as peças mais complexas, que depois eram despachadas para outras cidades. Temos também o campo de futebol e a estação de Ladainha, que hoje é mantida como ponto turístico. O espaço abriga um ponto de cultura e também funciona como rodoviária.”

A guia também chama a atenção para uma característica presente em diferentes pontos da antiga linha férrea: as casas dos agentes ferroviários.

“Uma observação muito interessante é que, em frente a cada estação, há uma casinha, que era a casa do agente ferroviário — a pessoa responsável por cuidar da estação naquela época. Vocês podem perceber isso também em Caporanga, onde existe a casa do agente ferroviário e uma estação preservada, e nos outros municípios por onde passamos e registramos as estações, como Sucanga e Vallão, até chegarmos ao município de Teófilo Otoni.”

Um projeto que ganhou força

A Rota Bahia-Minas também foi construída ao longo do tempo, com a participação das cidades envolvidas. Natália acompanha esse processo desde o início.

“Desde que o projeto ainda era um papelzinho, eu venho sonhando junto com a equipe, há aproximadamente cinco anos. A rota está mais firme, mais estruturada e estabilizada. Temos uma associação muito coesa e, hoje, já contamos com um calendário de eventos. As cidades acreditaram nesse projeto. Tem cidades que já estão no quarto pedal, outras no terceiro, mas a rota está cada vez mais solidificada. Estamos trabalhando nela há cinco anos.”

Questionada sobre o que a motiva a continuar no projeto, Natália relaciona a trajetória à prática esportiva, ao contato com a natureza e ao resgate da história.

“Eu já praticava esporte, sou uma amante da prática esportiva, e, quando começou o projeto da Rota Bahia-Minas, acho que as coisas se encaixaram. Eu gosto muito dessa questão do contato com a natureza e do resgate da história. O projeto é fantástico porque a gente não passa apenas pelo caminho que o trem fazia, pelo percurso. A gente se torna parte dele. Então, a história vive através de nós. Hoje, o que me faz querer continuar e participar é o sentimento de pertencimento. Eu aprendi a amar muito esse projeto, a Rota Bahia-Minas.”

Impacto econômico e novos caminhos em Teófilo Otoni

O resgate histórico promovido pela rota se reflete diretamente no desenvolvimento turístico e econômico dos municípios. Em Teófilo Otoni, a iniciativa ganha destaque com a preservação de atrativos marcantes e a realização do 4º Pedal Maria-Fumaça, como ressalta Renato Freitas, secretário de Desenvolvimento Econômico, Turismo e Economia Solidária do município.

“Nós tivemos, no passado, um grande empreendimento que foi a Estrada de Ferro Bahia-Minas, construída ainda no século XIX. Em 1966, tivemos a interrupção das atividades dessa estrada de ferro, o que gerou um luto muito grande na região. As pessoas sentem falta da ferrovia, que unia cidades, famílias e pessoas. O estudo do Sebrae identificou a rota de cicloturismo como uma oportunidade de desenvolvimento turístico e fomento à economia local”, destaca Renato.

Ciclistas que participaram do 4º Pedal da Fumaça reunidos na Praça Tiradentes, em Teófilo Otoni – FOTO: Kissyla F. Pires

O secretário reforça o impacto positivo da rota para a cidade e comunidades vizinhas. “Em Teófilo Otoni, temos o privilégio de contar com dois túneis por onde passava a Maria-Fumaça. As pessoas da própria rota, da região e das comunidades do entorno já estão colhendo os frutos desse novo empreendimento, recebendo visitantes de todo o estado e até de fora do Brasil.”

Memórias que permanecem

Vestígios da antiga ferrovia ainda podem ser percebidos em diferentes pontos do trajeto. Túneis, pontilhões e prédios das antigas estações permanecem na paisagem e, em muitos casos, foram transformados em espaços culturais e turísticos.

Em diferentes trechos, a viagem também reúne experiências ligadas ao cotidiano das comunidades. Em Ladainha, o visitante pode tomar um café com a querida Néia e aproveitar banhos de cachoeira. Em Engenheiro Schnoor, há a possibilidade de saborear um almoço caseiro. Na Pensão da Dona Luíza, também é servido almoço, completando a experiência gastronômica ao longo do percurso.

A antiga Bahia-Minas, que um dia levou Minas até o mar, hoje pode ser redescoberta por outros caminhos — entre estações, paisagens, sabores e histórias que permanecem.

Tags: ferroviabahiaminasmanhuacurotabahiaminassemfronteiras
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