GOVERNADOR VALADARES – Neste domingo (8) é celebrado o Dia Internacional da Mulher. Mais do que receber flores ou homenagens, a data reforça a importância da mulher na sociedade e relembra a história de luta por direitos, igualdade e proteção. Em um cenário marcado pelo aumento da violência de gênero, a data também convida à reflexão sobre os desafios que ainda persistem.
No final de novembro do ano passado, um caso de tentativa de homicídio chocou o país. A vítima, Tainara Souza Santos, de 31 anos, foi agredida, atropelada e arrastada pelo ex-companheiro por mais de um quilômetro na Marginal Tietê, em São Paulo. Após quase um mês internada em estado grave, Tainara morreu na véspera de Natal, deixando dois filhos. Depois da morte, o caso passou a ser tratado como feminicídio. Segundo as investigações, a mulher havia decidido encerrar o relacionamento, decisão que não foi aceita pelo ex-companheiro, que a perseguiu e a matou.
Casos como esse refletem um problema estrutural. Dados do Relatório Anual de Feminicídios no Brasil de 2025, elaborado pelo Laboratório de Estudos de Feminicídios da Universidade Estadual de Londrina (Lesfem/UEL), apontam que o país registrou 6.904 vítimas de feminicídio consumado ou tentado no ano passado. O número representa aumento de 34% em relação a 2024.
Do total, foram 4.755 tentativas e 2.149 assassinatos, o equivalente a quase seis mulheres mortas por dia no Brasil. O levantamento também mostra que, entre os quase 7 mil casos, predomina o crime no âmbito íntimo, responsável por 75% das ocorrências. Nesses casos, o agressor faz ou fez parte do círculo de intimidade da vítima, como companheiros, ex-companheiros ou pais de seus filhos.
A maior parte das mulheres foi morta ou agredida dentro de casa: 38% na própria residência e 21% na casa do casal. A faixa etária mais atingida foi a de 25 a 34 anos, com idade mediana de 33 anos. Ainda segundo o estudo, pelo menos 22% das vítimas já haviam denunciado os agressores antes do feminicídio.
O impacto da violência também atinge famílias inteiras. Cerca de 69% das vítimas tinham filhos ou dependentes. O relatório aponta ainda que 101 mulheres estavam grávidas no momento da violência e que 1.653 crianças ficaram órfãs em consequência dos crimes.
Outro caso recente que gerou comoção ocorreu em fevereiro deste ano. A estudante de psicologia Vanessa Lara, de 23 anos, foi encontrada morta em uma área de mata na cidade de Juatuba, na Região Metropolitana de Belo Horizonte. O corpo apresentava sinais de violência sexual. O suspeito, de 43 anos, foi preso pela Polícia Militar de Minas Gerais e confessou ter abusado da jovem e, em seguida, matado-a por estrangulamento.
Dados do Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública (Sinesp) mostram que Minas Gerais foi o segundo estado brasileiro com mais registros de feminicídio em 2025, ficando atrás apenas de São Paulo. Foram 139 mulheres mortas por agressores no período — uma média de quase três feminicídios por semana.
Realidade local
De acordo com a delegada titular da Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher (DEAM) de Governador Valadares, Dulcilaine Alcântara Gonçalves, o aumento dos casos de feminicídio é resultado de diversos fatores estruturais, culturais e circunstanciais.
Segundo ela, ainda persistem padrões culturais de dominação masculina, marcados por controle e relações de poder, especialmente em momentos de separação. “O feminicídio raramente é um evento isolado. Em regra, é o estágio final de um ciclo de violência que começa com agressões psicológicas, evolui para violência física e pode culminar no resultado letal”, explica. A delegada também aponta fatores desencadeadores situacionais frequentemente presentes nas investigações, como uso abusivo de álcool ou drogas, desemprego, disputas patrimoniais e a não aceitação do fim do relacionamento.
Em relação à realidade local, Dulcilaine afirma que a violência contra a mulher continua sendo uma preocupação central da segurança pública em Governador Valadares e região. Apesar do aumento na procura por atendimento nas unidades especializadas — o que pode indicar maior confiança das vítimas nas instituições — os dados também revelam a complexidade das ocorrências.
Entre os principais registros estão altos índices de violência psicológica e ameaças, crescimento de casos de perseguição (stalking) e violência após o término do relacionamento. Além disso, muitos feminicídios estão associados a um histórico prévio de violência doméstica.
Sinais de alerta
A delegada destaca que alguns comportamentos podem indicar risco de escalada da violência. Entre os sinais estão controle excessivo sobre rotinas e amizades, isolamento social da vítima, ameaças diretas ou veladas, ciúme patológico, descumprimento de medidas protetivas e histórico de agressões. Outro fator recorrente é a não aceitação do término da relação, elemento presente em grande parte dos casos de feminicídio. “Do ponto de vista técnico, quando há ameaça combinada com histórico de agressão, o risco é elevado e demanda intervenção imediata”, alerta.
Mesmo quando há denúncias anteriores, alguns casos evoluem para desfechos fatais. Segundo a delegada, isso pode ocorrer por diferentes motivos, como dependência emocional ou econômica da vítima, subnotificação de novos episódios de violência e aumento do risco logo após a denúncia, momento em que o agressor percebe a perda de controle.
Como denunciar
Para mulheres que vivem em relacionamentos abusivos, a orientação é buscar ajuda o quanto antes. “Não enfrentem essa situação sozinhas. É importante compreender que a violência tende a se agravar com o tempo e buscar ajuda precocemente aumenta significativamente a proteção”, destaca Dulcilaine. Em Governador Valadares, a Delegacia da Mulher funciona na Rua Arthur Bernardes, nº 932, no Centro. As ocorrências registradas fora do horário de expediente são encaminhadas para as delegacias de plantão, que funcionam de forma ininterrupta.
As denúncias também podem ser feitas pelo aplicativo MG Mulher, pelo telefone 190, pelo 180 (Central de Atendimento à Mulher) ou pelo 181 (Disque-Denúncia Unificado). Segundo a delegada, a rede de proteção conta ainda com apoio do Judiciário, do Ministério Público e da assistência social. “Sobretudo, é essencial que saibam: há proteção institucional e há caminhos seguros para sair do ciclo da violência. Nosso compromisso é acolher, proteger e responsabilizar o agressor dentro dos limites da lei”, conclui.







