O mês de fevereiro marcou o retorno dos estudantes à sala de aula, depois de um 2021 em que o ensino ficou dividido entre presencial e remoto. Em Governador Valadares, a rede municipal de ensino começou o ano letivo com 100% das turmas, no início de fevereiro, no dia 3, enquanto as escolas estaduais em Minas receberam os alunos no dia 7. Dentro do novo normal, máscaras, álcool em gel e medidas sanitárias foram medidas tomadas para assegurar que as aulas pudessem acontecer em sala.
Agora, em 2022, os estudantes terão que se adaptar a uma nova realidade, novamente, principalmente os que nos próximos oito meses cursarão o 1º ano do ensino médio. O desafio da vez para os gestores da educação, professores e alunos é o novo ensino médio.
Histórico escolar
No dia 16 de fevereiro de 2017 o então presidente da República, Michel Temer, sancionou o projeto de lei da reforma do ensino médio. A previsão na época era que este novo modelo fosse implementado a partir de 2019. Porém, com o surgimento da sars-cov-2 (coronavírus), infectando milhões de pessoas em escala global, os planos de um novo ensino médio precisaram ser adiados.
Cinco anos depois, as propostas escolhidas para a reforma começam a ganhar forma e conteúdo. Em todo o país, escolas públicas e privadas se movimentam para tirar do papel e implementar as mudanças, que começam a valer em 2022 para as turmas do 1º ano.
Neste ano letivo, os alunos vão ter que cumprir os chamados itinerários formativos, mas eles só serão obrigatórios a partir de 2023. A carga horária de estudos também sofreu alteração: as 4 horas atuais passam para no mínimo 5, que já começam a valer em 2022.

Mas o que tem de novo no ensino médio?
A reforma no ensino médio apresenta uma nova proposta para os últimos três anos de estudos. A ideia é aproximar o aprendizado em sala de aula ao mercado de trabalho, com o ensino sendo integrado a cursos técnicos. Assim, o aluno se forma no ensino médio já com o diploma de uma área específica.
O novo ensino médio também modifica a organização de como o conteúdo ensinado é apresentado para os alunos, as disciplinas passam a ser áreas do conhecimento, no formato do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) e de outros vestibulares: linguagens e suas tecnologias; matemática e suas tecnologias; ciências da natureza e suas tecnologias; ciências humanas e sociais aplicadas.
Neste novo formato, uma aula, por exemplo, sobre o centenário da Semana da Arte Moderna no Brasil pode abranger história, sociologia, filosofia, que são um conjunto de disciplinas da área Ciências Humanas e Sociais Aplicadas.

Outro ponto de mudança bastante expressivo neste novo modelo de ensino é a adição dos itinerários formativos. Eles funcionarão por meio de projetos, oficinas, núcleos de estudos ou outra atividade proposta pela escola para o aluno aprofundar os estudos de uma área do conhecimento e da formação técnica e profissional.
Essas mudanças aos poucos convergem para tornar o aluno protagonista da jornada de aprendizado enquanto estudante. Mas, além de proporcionar uma nova dinâmica em sala de aula, é preciso considerar a capacidade dos jovens e adolescentes de fazer escolhas.
A fim de preparar melhor o aluno para tantas novidades, a reforma propõe o “Projeto de Vida”, por meio do qual as escolas terão que planejar e oferecer aos alunos orientações para entender o que eles querem no futuro, levando em consideração que, ao mesmo tempo, a escola é o ambiente multiplicador nesse processo.
Uma observação importante
O “Projeto de Vida” no texto da reforma do novo ensino médio não especifica se essa orientação deve ser feita por um profissional especializado, como um psicólogo, ou se um professor ou profissional da unidade de ensino será responsabilizado pela função.
A reforma no ensino médio chega para tentar suprir as necessidades de aprimorar a educação no país em um momento bem específico da vida de jovens e adolescentes. Os últimos três anos de estudos se tornaram uma verdadeira maratona, com várias decisões que podem levar a diferentes percursos. A proposta de um modo geral apresenta boas intenções em tornar mais flexível a matriz curricular, mas ao mesmo tempo esbarra nas dificuldades de colocar em prática uma série de mudanças que movimentam a base da estrutura da educação no ensino médio.
Teoria x Prática
Qualquer política pública que se proponha a fazer uma reforma, como é o caso do novo ensino médio, exige um esforço dos gestores públicos e dos legisladores de aproximar o mundo ideal do mundo real.
Na realidade do Brasil, um país continental e diverso em modelos de escolas como no sistema público – estadual, municipal e federal; colégios privados; escolas de grande, médio e pequeno porte – conciliar teoria e prática é um grande desafio; afinal, por mais que o conteúdo da base curricular do Ministério da Educação seja disponibilizado a todas as escolas com as mesmas diretrizes, a forma de aplicar encontra peculiaridades na rotina em sala de aula.
No dia 7 de fevereiro, às 7 horas da manhã, começou o ano letivo para as cinco turmas do 1º ano do ensino médio da Escola Estadual Israel Pinheiro. Foi o primeiro dia, de muitos pela frente, em que o horário de término da aula foi estendido para 12h20. No mesmo dia, em uma escola particular, no centro de Valadares, os 140 alunos do 1º ano do ensino médio estavam no seu sétimo dia letivo, mas sem muitas novidades, já que a escola funciona em tempo integral. No outro lado da cidade, o Campus do IFMG ainda não estava movimentado. Os alunos só entraram em sala de aula na quarta-feira, dia 10. Essas três escolas, cada uma no seu ritmo, começaram o novo ensino médio na prática.

Na Escola Estadual Israel Pinheiro a rotina mudou para os alunos e também para os professores, porteiros, cozinheiras e tantos outros profissionais que trabalham dentro da instituição e tiveram que se adaptar. Por exemplo, além da refeição servida no horário do recreio, os alunos do 1º ano recebem um lanche extra, um trabalho a mais para as “tias” da cozinha. O horário de aula dos professores precisou ser revisto e organizado de forma que se encaixe com a nova carga horária.
Segundo a diretora da escola, Ana Cristina Marques de Oliveira, o planejamento para a aplicação da reforma do ensino médio começou em 2021. A coordenação da escola, junto com os professores, passou por treinamentos do funcionamento do novo ensino médio, e também nos meses de novembro e dezembro foram realizadas reuniões com os alunos do 9º ano sobre o assunto.
Já em 2022, uma semana depois do início das aulas, a diretora teve a primeira reunião com os professores para avaliar os primeiros dias do novo ensino médio. “Os professores já fizeram o primeiro planejamento em cima dos livros. Os livros também já estão todos de acordo com essa nova matriz curricular. Alguns professores estão um pouco ansiosos e preocupados se vão dar conta, porque é uma nova metodologia de trabalho, né?! Porque agora os livros não vêm mais por disciplina, eles vêm por áreas de conhecimento. Então, eles [professores] terão que sempre estar planejando. Os alunos já estão recebendo os livros esta semana, e a proposta é, a partir da semana que vem, já iniciar com as aulas de forma interdisciplinar”, contou a diretora da escola.
Segundo a superintendente regional de Ensino em Governador Valadares, Sandra Márcia, junto com a Secretaria de Educação de Minas Gerais, professores, diretores e coordenadores das escolas estaduais participaram de seminários e webinários para esclarecer as dúvidas e inquietações desses profissionais sobre a reforma.
“Posteriormente, um curso de aprofundamento será realizado para os profissionais que participaram do curso Introdutório de Tecnologia e Inovação. Já a Superintendência Regional de Ensino, através de suas diretorias, realiza formações pontuais com esses profissionais”, explicou Sandra Márcia.
Transferência escolar
No Campus do IFMG, o novo ensino médio não impactou em grandes alterações, explica a coordenadora pedagógica, Clara Regina Agostini Oliveira. “Neste momento [a reforma do novo ensino médio] não nos afeta. O novo ensino médio traz uma base comum curricular que sempre existiu”.
O Instituto tem uma proposta de ensino que articula a formação do ensino médio (geral e básica) com a formação profissional (técnica).

Os alunos têm aula das 7 horas da manhã até 12h10, de segunda a sexta, e duas vezes na semana a carga horária é estendida até as 17h20. Assim, os alunos do 1º ano do ensino médio já ingressam no curso técnico integrado, que tem uma carga horária maior do que o ensino médio regular.
Já em uma escola particular, no centro da cidade, a obrigatoriedade da implantação do novo ensino médio em 2022 chegou como se fosse um eco, isso porque o colégio havia começado as adaptações da reforma em 2020. “Na carga horária não tivemos impactos, e em termos curriculares com a nova BNCC [Base Nacional Comum Curricular] nós tivemos, por causa do rearranjo curricular com a inclusão dos itinerários”, explicou a coordenadora pedagógica do ensino médio do colégio, Jaqueline Dayrell.
Neste colégio particular, os alunos do 1ª e 2ª ano do ensino médio têm aulas das 7h às 12h30 e uma vez na semana retornam na parte da tarde, às 14h, e ficam na escola até 18h30. Além disso, eles têm durante a semana, na parte da tarde, um dia para participar do grupo de avaliações, e em outra tarde eles voltam para a educação física. De forma opcional, o aluno também pode retornar em outro dia da semana na parte da tarde para ter um atendimento individualizado com monitoras.

Com uma carga horária de aula robusta, atender as especificações da reforma do ensino médio na questão do tempo de aulas não foi uma dor de cabeça para a coordenação do colégio. Agora, conseguir conciliar o horário dos professores com uma matriz curricular flexível, isso sim foi um jogo de quebra-cabeça, em que achar o lugar de cada peça não foi um dever de casa fácil. “Foi necessário reestruturar a organização e o formato do trabalho com os professores para manter esses profissionais, mesmo com a mudança curricular. Foi desafiador!”, disse Jaqueline Dayrell.
Por outro lado, o planejamento antecipado, desde 2020, permitiu uma preparação para lidar melhor com tanta novidade, principalmente com os itinerários formativos. “No ato da matrícula ele [aluno] escolhe com qual área vai cursar no 2º ano. Nós entendemos que no 1º ano os alunos são muito jovens para entender essa dinâmica. Então, a gente coloca o Projeto de Vida, faz todo um trabalho de autoconhecimento, de vocação, aí só no segundo ano que ele escolhe [o itinerário formativo]. No ato da matrícula ele escolhe entre Ciências da Natureza e Ciências Humanas, e quando ele escolhe aí ele vai para esse percurso ou para aquele percurso. Ele vai fazer o aprofundamento na área que escolher”, explicou a coordenadora sobre a dinâmica dos itinerários no colégio.
Educação em pauta
A reforma do novo ensino médio propõe que as alterações aconteçam de forma gradativa. O primeiro passo foi dado neste ano, e a previsão é que até 2024 a implementação seja concluída para todas as escolas.
Mas para chegar até lá o caminho a ser percorrido vai exigir muito trabalho dos gestores, coordenadores, profissionais da educação e estudantes. A construção deste novo ensino médio se fará dentro e fora de sala de aula. Assim, os próximos anos serão essenciais para a avaliação desse modelo de ensino.
A doutora em Ciências da Educação e diretora do ETEIT, Cláudia Reis Godinho, avalia que a reforma do ensino médio transforma um modelo de educação engessado para um com mais autonomia e flexibilidade, onde o aluno passa a ter um protagonismo melhor na construção do ensino, mas ressalta preocupação com a forma da aplicação das mudanças.
“O aluno hoje terá que começar pelo ensino médio fazendo escolhas sem antes ter sido preparado, porque o projeto é desde a educação infantil, onde o ensino é trabalhado de outra forma. A lei deveria começar com a obrigatoriedade lá na educação infantil agora, ou no máximo no fundamental II, no sexto ano, e aí sim alguns alunos estariam preparados para o ensino médio do jeito que é. Então, essa é uma grande preocupação”.
Para a doutoranda em Educação pela Universidad SEK em Santiago, no Chile, Clara Regina Agostini Oliveira, é preciso se atentar à formação dos professores e da equipe pedagógica, além do investimento na estrutura das escolas, para pôr em prática o novo ensino médio.
“Em termos de políticas públicas, a mesma ênfase que está sendo dada à organização curricular deveria se dar na infraestrutura das escolas e na formação das pessoas que vão trabalhar com essa proposta. […] O modelo anterior tinha os mesmos problemas que vamos continuar tendo. Vai depender da escola, vai depender do corpo de pessoas que vão desenvolver, que vai da cantineira ao diretor, professores, equipe pedagógica. As pessoas que vão fazer esse novo ensino médio são as mesmas pessoas que faziam o ensino médio anterior”, explica Clara Regina.
Jaqueline Dayrell participou em 2018 de alguns encontros promovidos pelo Ministério da Educação, em Brasília (DF), para falar sobre o novo ensino médio. Segundo ela, como coordenadora pedagógica, há uma preocupação em como essas mudanças impactam na aplicação do Enem.
“O que temos para melhorar é o nosso diálogo com o Inep. Até hoje o Inep não soltou para nós como vão ser as provas do Enem. O Inep ainda não tem essa definição. Eu acho que o desafio é muito bem pontual, no que tange a aplicação da prova, que não está claro para nós gestores da educação como devemos conduzir as divisões desses aprofundamentos que não existem na matriz, uma diretriz específica. Isso é desafiador e frustrante ao mesmo tempo”, conta Jaqueline.







