Especialistas e pesquisadores vêm alertando que a incidência da covid-19 se mantém em um patamar elevado no Brasil, o que dá oportunidade para o surgimento de novas variantes do coronavírus, elevando o risco de uma terceira onda “ainda mais grave” do que as duas primeiras ondas. Inclusive, o secretário estadual de Saúde, Fábio Baccheretti, informou nesta quinta-feira (13) que Minas já está se preparando para a possibilidade de ocorrência de uma terceira onda de casos de covid-19.
Em entrevista ao DRD, a epidemiologista e professora do Departamento de Medicina da Universidade Federal de Juiz de Fora em Governador Valadares (UFJF-GV) Waneska Alexandra Alves esclareceu algumas dúvidas sobre a possível chegada da “terceira onda” da covid-19 , e se o sistema de saúde de Valadares estaria preparado para esse acontecimento.
Para Waneska Alexandra Alves, é cedo afirmar que haverá uma terceira onda da doença, tendo em vista que o país ainda sofre com as consequências da segunda onda. “Importante dizer que ainda não saímos nem da segunda onda. Não tivemos uma queda significativa de óbitos e casos no Brasil. Sobre a terceira onda, analisar no tempo a questão da covid-19 é muito complexo, tendo em vista que o Sars-CoV-2 está sofrendo mutações no mundo inteiro e não sabemos as consequências relacionadas a essas mutações, se serão mais graves ou menos graves. O que posso dizer é que o Brasil sempre esteve em um patamar elevadíssimo nos números de casos e óbitos em relação a outros países. Se for comparar com o ano passado, 2021 está bem pior em relação à doença. Falar em terceira onda ainda é um assunto bem complexo”, disse.
Pandemia “está longe de terminar”
Na visão da médica, mesmo com o processo de imunização, a pandemia está longe do fim. “Os números continuam altos. Você não pode considerar que estamos em queda com a média de óbitos em alta, sem contar os casos subnotificados. O percentual de pessoas assintomáticas é altíssimo ainda. Os serviços de saúde ainda estão em colapso. Não podemos dizer de forma alguma que a pandemia está próxima do fim. Aliás, estamos longe desse processo”, explicou.
Presença de mais jovens nos hospitais
O número de novas internações de idosos com 80 anos ou mais por covid-19 caiu 20%, cerca de um mês e meio depois do início da vacinação contra a covid. Já as internações causadas pela doença, na faixa etária dos 30 aos 39 anos, registrou um aumento significativo nos hospitais.
Segundo Waneska, a presença de novas variantes potencializa a presença do vírus no público mais jovem. “Nós ainda estamos conhecendo essa doença. Até o final de 2019 o mundo ainda não tinha nenhum conhecimento sobre esse vírus. Antes disso, os médicos não conheciam a história natural da doença e seu processo de adoecimento. Vejo que o vírus está cada vez mais modificado e estamos caminhando de maneira lenta em relação ao aprendizado sobre o vírus. A população mais jovem, dos 20 aos 49 anos, neste momento tem sido mais contaminada. Provavelmente é porque esse grupo acaba se expondo mais do que os idosos, e também devido à presença de mais variantes no mundo todo. Quando analisamos os óbitos, eles continuam concentrados em pessoas acima dos 50 anos, coisa que era mais rara em 2020. Hoje, a faixa etária de 30 a 49 está sendo afetada cada vez mais”, explica.
Situação de Valadares ainda é grave
Nesta quinta-feira (13) Valadares chegou a 1.085 mortes causadas pelo novo coronavírus. Só nas últimas 24 horas o município registrou três mortes de pessoas com idade acima dos 60 anos. Todos tinham comorbidades. De acordo com a secretária municipal de saúde, até o momento não há pacientes aguardando a regulação do Governo do Estado, via SUS/Fácil-MG, para um leito de UTI Covid.
Embora os números da doença estejam caindo nos últimos dias, Waneska alerta que o município ainda não vive dias melhores. “Governador Valadares está entre os 10 municípios mineiros com maior número de casos e óbitos no estado, com nível de letalidade elevadíssimo. Conforme painel de saúde do estado, a letalidade média do Estado é de 2,5%, enquanto Valadares está em quase 4%, desde o início da pandemia. Isso pode ser explicado pela própria estratégia adotada pelo município durante a pandemia, em não estimular a população em relação às medidas de distanciamento social e à política do município de não ter fortalecido a educação da população quanto ao uso de máscaras. A gente sabe que a população que precisa trabalhar não tem como ficar em casa. Mas, ao sair de casa, é preciso tomar cuidado. A gente vê ainda pessoas no centro sem máscaras, pessoas fazendo caminhada na Ilha dos Araújos sem máscara, crianças nas praças sem máscaras. Ou seja, não houve conscientização”, disse.
A médica fez críticas à Prefeitura de Valadares quanto ao uso do chamado “Kit Covid”, coquetel de medicamentos distribuído nos postos de saúde. “A gente sabe que é ineficaz e contraindicado do ponto de vista da ciência mundial para a prevenção ou tratamento de covid. Nós sabemos que não funciona, e a Prefeitura ainda estimula a população quanto ao uso do Kit Covid”, afirmou.
Em resposta à critica da médica, a Secretaria Municipal de Saúde (SMS) informou que “orienta as pessoas acometidas pela covid-19 a que procurem ‘atendimento precoce’ em caso de manifestação de algum sintoma da doença. O atendimento prestado na rede pública de saúde conta com realização de testes rápidos e RT-PCR, avaliação médica e que, de acordo com o caso de cada paciente, o profissional adota as condutas necessárias”, respondeu.


















