DIAMANTINA – O Ministério Público de Minas Gerais (MPMG) participou, na sexta-feira (20), da cerimônia de entrega das obras de restauração da Casa do Intendente dos Diamantes Manoel Ferreira da Câmara Bethencourt e Sá, em Diamantina, no Vale do Jequitinhonha. O imóvel do século XVIII, pertencente à Mitra Arquidiocesana de Diamantina, passou por intervenções estruturais e artísticas executadas pela instituição religiosa com recursos destinados pelo MPMG. A edificação deverá abrigar um museu, com inauguração prevista para o primeiro semestre deste ano.
A iniciativa foi viabilizada pela Coordenadoria das Promotorias de Justiça de Defesa do Patrimônio Cultural e Turístico de Minas Gerais (CPPC). O projeto foi selecionado por meio da plataforma Semente, ferramenta que analisa propostas de relevância social e cultural para receber recursos provenientes de medidas compensatórias, como multas e indenizações. A ação integra a segunda fase do programa Minas para Sempre, do Centro de Apoio Operacional às Promotorias de Justiça de Defesa do Meio Ambiente (Caoma).
Investimento e requalificação
Antes da intervenção, o sobrado apresentava sinais de degradação em parte de suas estruturas e permanecia fechado ao público há mais de duas décadas. Embora tenha passado por reforma na cobertura há cerca de 12 anos, o casarão carecia de uma restauração ampla que garantisse segurança e integridade aos elementos ornamentais.
O investimento foi de R$ 1 milhão, com obras executadas ao longo de 24 meses. Os serviços incluíram recuperação de elementos arquitetônicos, restauro de pinturas e forros e readequações estruturais para assegurar acessibilidade universal. Com a revitalização, o imóvel foi requalificado para abrigar atividades culturais e receber visitação pública.
Durante a solenidade, o arcebispo de Diamantina, Dom Darci José Nicioli, relembrou a trajetória do prédio e de seu mais ilustre morador, o Manoel Ferreira da Câmara Bethencourt e Sá, destacando sua formação em Coimbra e a amizade com José Bonifácio. “Hoje, ao devolvermos suas páginas ao frescor do presente, permitimos que as novas gerações possam contemplar o passado, entendendo suas raízes e construindo seu futuro”, afirmou.

A museóloga Lílian Aparecida Oliveira ressaltou que o restauro técnico representa o primeiro passo para a ocupação social do espaço. Segundo ela, o plano museológico foi concebido para que o imóvel dialogue com os desafios contemporâneos, conectando-se às demandas e à identidade do presente.
O promotor de Justiça e coordenador da CPPC, Marcelo Azevedo Maffra, destacou a importância da atuação conjunta entre instituições. “A união é a palavra que move a preservação do patrimônio. O Minas para Sempre materializa esse ideal de integração, envolvendo poder público e sociedade”, afirmou, agradecendo o empenho da Coordenadoria Estadual de Defesa da Ordem Econômica e Tributária (Caoet) na viabilização dos recursos.
O procurador-geral de Justiça, Paulo de Tarso Morais Filho, reforçou o papel do Ministério Público como agente de transformação social. “Promover a Justiça vai muito além de ajuizar ações. É buscar a efetivação da cidadania plena e dos direitos indisponíveis, entre eles o de ter preservado o patrimônio histórico. Estamos devolvendo a Diamantina um pedaço da sua alma”, declarou.
História e arquitetura
Construída no século XVIII, a Casa do Intendente Câmara é um dos exemplares mais representativos da arquitetura colonial mineira. O sobrado testemunha o trabalho de artífices e de pessoas escravizadas, cujos conhecimentos especializados foram essenciais para a execução de estruturas complexas, como os 37 esteios e pés-direitos que sustentam a edificação e os refinados tetos em gamela.
A fachada branca com janelas azuis, característica de Diamantina, e as sacadas na parte frontal e nos fundos marcam a identidade do imóvel. No pavimento superior, oito cômodos amplos preservam o piso original de madeira, apesar de modificações pontuais ao longo do tempo. Internamente, destaca-se o forro pintado — sala com afrescos em policromia. Nos fundos, um quintal amplo com ornamentações e saída para uma viela mantém a configuração espacial típica dos terrenos coloniais.
A restauração foi viabilizada por meio do programa Minas para Sempre, que busca recuperar bens culturais tombados em situação de risco. A gestão dos recursos ocorreu via plataforma Semente, conectando projetos da sociedade civil a valores oriundos de medidas compensatórias e decisões judiciais, assegurando que recursos destinados à reparação de danos retornem à sociedade sob a forma de preservação cultura











