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Chocou não ter aonde ir em Finados, diz irmã de vítima de Brumadinho

por CAROLINA LINHARES (FOLHAPRESS)

O céu estava fechado, ventava forte e trovejava no domingo (19), em Brumadinho (MG). “Vai chover, até dói o coração”, disse Josiana Resende, 31. Sua preocupação com a chuva era justificada: “Quando chove, as buscas param”.

Sua irmã Juliana Resende, 33, é uma das 11 pessoas ainda não encontradas pelos bombeiros, após quase um ano do rompimento da barragem 1, da Mina Córrego do Feijão, da Vale.

Outros 259 dos 270 mortos já foram encontrados, identificados e sepultados.

“Foi uma situação muito difícil o dia 2 de novembro. Claro que teve dias difíceis antes – Dia das Mães, Dia dos Pais, aniversário. Mas no Dia de Finados, não ter pra onde ir, não ter onde depositar flor e fazer uma oração? Chocou muito”, diz Josiana.

Dennis da Silva, 37, marido de Juliana, também trabalhava na Vale e morreu – foi identificado nos primeiros dias após a tragédia. O casal deixou dois bebês gêmeos de dez meses. Hoje, com um ano e nove meses, as crianças são criadas pelos avós maternos, a quem chamam tanto de vovô e vovó como de papai e mamãe.
Josiana também trabalhava na Vale e escapou por pouco. Sexta-feira, 25 de janeiro de 2019, era seu dia de folga. Ela trabalhara na quinta e deveria trabalhar no sábado.

A família de Juliana quer achá-la não para encerrar o sofrimento, mas para vivê-lo em uma nova etapa. “Nossa luta é para que as buscas não parem. Para que a gente possa se despedir e fechar o ciclo”, diz.

“Os bombeiros não estão lá salvando a vida dos 11 que ainda estão na lama. Eles morreram. Estão salvando as nossas vidas mesmo. De quem ainda está na angústia e no desespero para fechar o ciclo.”

Josiana sabe que as buscas são menos efetivas a cada dia que passa. Por isso, seu maior temor é que sejam encerradas sem que sua irmã seja encontrada –ela não gosta de pensar nessa possibilidade.

Por estarem em estado avançado de decomposição, o IML não conseguiu extrair DNA de 81 fragmentos humanos encontrados na lama. Há outros 44 em processo de identificação. O instituto recebeu 854 no total, incluindo 79 corpos considerados inteiros – mas novos fragmentos chegam diariamente.

Os bombeiros pretendem continuar as buscas até encontrar os 11 restantes ou até que o material recolhido não seja mais passível de verificação por DNA. Outra possibilidade é encerrar a operação se houver um período longo sem novas identificações, ou seja, se novos fragmentos recolhidos ao longo de meses servirem apenas para reidentificações.

Um ano após o rompimento, outro desafio para os parentes das 11 vítimas é a volta do período chuvoso. O número de bombeiros em campo chegou a ser diminuído para cerca de 75, porque as buscas rendem menos com a lama molhada.

“O que choca mais é que as 259 pessoas identificadas são só identificadas mesmo. Porque ter o corpo delas, não tem”, diz Josiana.

Mesmo se só uma parte de Juliana for encontrada, haverá alívio de “saber que ela não está na lama mais”. “O fato de ela ainda estar na lama machuca”, diz a irmã.

Seu pai fantasia que o corpo da filha estará preservado. Sua teoria é de que não foi encontrada porque está em grande profundidade, onde estaria mais conservada em meio ao minério de ferro. Para Josiana, tudo é possível, já que corpos em todo tipo de estado foram achados ao longo do ano, sem relação necessária com a passagem do tempo.

“Acharam gente no dia 268 que fez impressão digital”, argumenta. “Agora, causa estranheza a nós e aos bombeiros que todos ao redor dela foram achados, menos ela.”

Juliana estava na área administrativa da Vale, construída a 1,5 km abaixo da barragem. O plano de emergência da mineradora previa que os funcionários teriam um minuto para deixar o local. A fuga em tão pouco tempo já era considerada irreal, mas a realidade foi pior: engoliu os escritórios e o refeitório em 30 segundos, sem aviso de sirene.

Analista administrativa, Juliana trabalhava na Vale havia dez anos. Já Josiana estava na empresa havia cinco anos como técnica de enfermagem do trabalho. Hoje está afastada e recebe pensão do INSS. Questionada sobre a indenização a ser paga pela morte da irmã, disse que a prioridade é encontrá-la.

“Achávamos que a barragem estava segura, porque senão ninguém ia trabalhar. Como estava inativa, eu achava que estava seca”

diz Josiana.

“A gente é muito unido e a Ju era a ponte disso. As festas de fim de ano era ela que planejava e fazia as coisas do jeito dela”, relata. Josiana usa uma camiseta de homenagem: “Dói demais o jeito que você foi embora. Juju, você deixou de viver entre nós para viver em nós”.

Ela não pensava que a irmã estaria entre as últimas da lista. “Nunca imaginei que ia esperar por tanto tempo, nem ter força para lutar por tanto tempo. Deus está carregando essas 11 famílias no colo, porque senão não estávamos de pé.”

Josiana é vice-presidente da associação de vítimas do rompimento da barragem 1. A entidade foi criada em agosto, para fazer reivindicações à Vale e dar voz aos familiares. “Que nenhum corpo fique debaixo da lama”, é um de seus lemas.

Neste momento, o único consolo da família de Josiana são os gêmeos órfãos. Os avós, que já criaram quatro filhos, se veem agora com a responsabilidade de educar mais dois. Eles ensinam às crianças que os pais delas são estrelinhas no céu.

“A presença deles é o que tem nos ajudado. Mas também traz tristeza saber que não vão ter o amor do pai e da mãe, e que os pais não vão ver os filhos crescerem”, diz Josiana.

Ela não sabe se as crianças entendem alguma coisa, mas costumam apontar e beijar uma foto dos pais exposta na sala.

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