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Programa oferece orientação, apoio e consultorias gratuitas a brasileiros que vivem no exterior e a migrantes que retornam ao país

Fred Seixas by Fred Seixas
outubro 26, 2026
in MANCHETE
0
Programa oferece orientação, apoio e consultorias gratuitas a brasileiros que vivem no exterior e a migrantes que retornam ao país

Embaixador Santiago Irazabal Mourão, Cônsul-Geral do Brasil em Boston, ao lado de Rogers De Marco, presidente da CDL-GV, e Silas Dias Costa Júnior, Diretor de Negócios da Crediriodoce - FOTO: Divulgação


Missão em cidades dos Estados Unidos ampliou parcerias para fortalecer a rede de apoio

GOVERNADOR VALADARES – Carlos deixou Governador Valadares em 2008 com um objetivo: construir uma vida melhor nos Estados Unidos. Na época, era casado, tinha um filho de dois anos e a esposa estava grávida. Partiu antes do nascimento da filha e, durante anos, acompanhou seu crescimento apenas por fotografias.


Nos Estados Unidos, trabalhou na construção civil e com pintura, passando pela Flórida e por Boston. Depois de cerca de cinco anos, decidiu voltar ao Brasil. Tinha economizado dinheiro, mas também carregava a saudade e as marcas de uma longa separação familiar. Queria recuperar o tempo perdido e reconstruir a vida ao lado dos filhos.

De volta a Valadares, resolveu empreender. Abriu uma construtora e conquistou reconhecimento pela qualidade dos imóveis que entregava. O negócio, porém, não resistiu às dificuldades administrativas. Sem conhecer suficientemente os processos de regularização de imóveis e os custos tributários, viu o empreendimento encerrar as atividades em menos de cinco anos. Hoje, trabalha novamente como mestre de obras e alimenta o sonho de voltar aos Estados Unidos.

Carlos é um nome fictício, mas sua história é real. Como a dele, há outras trajetórias de brasileiros que deixam o Leste de Minas em busca de oportunidades no exterior e, ao retornar, encontram obstáculos para reorganizar a vida financeira, abrir um negócio ou planejar o futuro.


Em uma região marcada pela imigração, a expectativa de voltar com dinheiro suficiente para mudar de vida pode se transformar em pressão. Nem sempre a experiência acumulada no exterior vem acompanhada de conhecimento sobre gestão empresarial, investimentos e obrigações fiscais no Brasil. Quando os planos não saem como esperado, as consequências podem atingir também a vida familiar e emocional.

É nesse cenário que surgiu o Cooperação sem Fronteiras, programa do Sicoob Crediriodoce, desenvolvido em parceria com o Sebrae e outras instituições. A iniciativa oferece orientação gratuita a brasileiros que vivem no exterior e a migrantes retornados, com foco em educação financeira, empreendedorismo, investimentos e regularização documental.

A proposta é ajudar essas pessoas a tomar decisões com mais informação, evitar perdas e transformar o dinheiro conquistado com anos de trabalho em oportunidades sustentáveis de recomeço.

Silas Dias Costa Júnior, Andrew Boy, analista do Sebrae, Jaqueline Alves, analista de Negócios da Crediriodoce, Rogers De Marco, e Sérgio dos Santos Reis, doutor e mestre em Ciências Contábeis – FOTO: Divulgação

Uma rede para apoiar quem está longe

Em outubro, uma missão internacional do Cooperação sem Fronteiras percorreu cidades de Massachusetts e Connecticut, nos Estados Unidos, para aproximar o programa das comunidades brasileiras e ampliar parcerias. A comitiva reuniu representantes do Sicoob Crediriodoce, do Sebrae e da Câmara de Dirigentes Lojistas de Governador Valadares (CDL-GV). A comitiva foi formada por Silas Dias Costa Júnior, diretor de Negócios do Sicoob Crediriodoce; Jaqueline Alves, coordenadora do Cooperação sem Fronteiras; Andrew Boy, analista do Sebrae; Rogers De Marco, presidente da CDL-GV; e Sérgio dos Santos Reis, professor e doutor em Contabilidade, especialista em saída fiscal.

A agenda incluiu encontros com lideranças comunitárias, representantes públicos e instituições ligadas ao desenvolvimento econômico. Também foram realizadas orientações sobre educação financeira, empreendedorismo e planejamento patrimonial.

Um dos principais resultados foi a assinatura de um protocolo de intenções e parceria institucional entre o Sicoob Crediriodoce, o Sebrae Minas e a Baptist Churches of New England (BCNE), organização presidida pelo pastor Lierte Soares e que reúne mais de 400 igrejas na região da Nova Inglaterra. 

Para Silas Dias Costa Júnior, diretor de Negócios do Sicoob Crediriodoce, o programa nasceu da necessidade de reduzir os prejuízos enfrentados por parte dos migrantes e ampliar os benefícios que os recursos enviados do exterior podem gerar para toda a comunidade.

“Se o migrante ganhar, se for bem-sucedido, quem ganha? Ganhamos todos nós, ganha a comunidade”, afirma.

Silas observa que Valadares recebe recursos enviados por brasileiros que trabalham no exterior, mas considera que esse dinheiro ainda poderia contribuir mais para o desenvolvimento local. Para ele, a falta de planejamento pode comprometer tanto o patrimônio das famílias quanto as oportunidades de geração de emprego e renda.

O programa busca atuar justamente nessa lacuna, oferecendo orientação para que o migrante possa organizar as finanças, avaliar investimentos e estruturar um negócio antes de comprometer suas economias.

“Do sonho à realidade, tem uma distância gigante”, resume Silas, ao falar sobre a importância da preparação para empreender.

Informação antes de investir

A coordenadora do Cooperação sem Fronteiras, Jaqueline Alves, explica que a iniciativa foi estruturada para encaminhar cada demanda a profissionais e instituições capazes de oferecer o suporte adequado.

O atendimento contempla pessoas que desejam investir, abrir uma empresa ou esclarecer dúvidas sobre sua situação documental e fiscal. O programa conta com consultorias gratuitas de investimento, apoio do Sebrae para negócios e encaminhamento a especialistas em questões tributárias e documentais.

“Hoje, o pilar é o empreendedorismo e investimento”, explica Jaqueline. Segundo ela, a rede também busca parceiros especializados para atender outras necessidades que surgem durante o processo de retorno.

A experiência mostra que ter dinheiro para investir não significa, necessariamente, estar preparado para administrar uma empresa. Sem conhecimento técnico, planejamento e acompanhamento, uma economia acumulada durante anos pode ser comprometida em pouco tempo.

Jaqueline relata casos de pessoas que investiram todas as suas economias em negócios indicados por conhecidos, sem avaliar adequadamente o potencial da atividade ou as exigências de gestão. Algumas perderam dinheiro e precisaram voltar ao exterior para tentar reconstruir o patrimônio.

Em contrapartida, ela cita histórias de migrantes que buscaram orientação, conseguiram estruturar seus empreendimentos e hoje geram oportunidades de trabalho.

“Por meio do programa, queremos que essas pessoas sejam bem-sucedidas”, afirma.

A vida fiscal também exige planejamento

A organização da vida financeira não se limita às economias e aos investimentos. Para quem mora fora do Brasil, compreender as obrigações fiscais e as consequências de uma eventual saída fiscal é uma etapa importante do planejamento.

Durante a missão, o professor e doutor em Ciências Contábeis Sérgio dos Santos Reis ofereceu orientações sobre o tema. Na US Brazil Trade Show, em Framingham, a comitiva também promoveu atendimentos gratuitos sobre saída fiscal, consulta de dados e criação de contas GOV.BR.

Segundo o especialista, a decisão de formalizar a saída fiscal pode ter consequências para contas bancárias, investimentos, rendimentos e outros vínculos financeiros mantidos no Brasil. Por isso, ele recomenda analisar cada situação antes de tomar uma decisão.

A orientação individual é importante porque as regras e os efeitos variam conforme as circunstâncias de cada contribuinte. A situação de quem mantém imóveis alugados, investimentos, rendimentos ou benefícios no Brasil pode exigir cuidados específicos.

O programa pretende facilitar o acesso a informações e a profissionais que ajudem os brasileiros a compreender suas obrigações e a organizar a documentação. A proposta não é oferecer uma solução única para todos, mas ajudar cada pessoa a avaliar as alternativas disponíveis com mais segurança.

Na prática, esse suporte pode evitar decisões precipitadas e dificuldades para movimentar recursos ou regularizar pendências durante o retorno.

Aprender com outras experiências

Além de divulgar o programa, a missão buscou conhecer iniciativas que possam inspirar ações de desenvolvimento em Governador Valadares.

Em Boston, a comitiva visitou o Consulado-Geral do Brasil e se reuniu com o cônsul-geral, embaixador Santiago Irazabal Mourão, e com a cônsul-geral adjunta, ministra Maria Helena Pinheiro Penna. O encontro abordou demandas da comunidade brasileira e possibilidades de cooperação nas áreas de educação financeira, empreendedorismo, organização patrimonial e planejamento para a aposentadoria.

A agenda incluiu ainda uma visita ao Departamento de Planejamento da Prefeitura de Boston, onde a comitiva conheceu práticas relacionadas ao desenvolvimento urbano, ao uso de dados e à participação comunitária.

Em Framingham, houve reuniões com a deputada estadual de Massachusetts Priscila Sousa, representantes da Framingham Business Association e integrantes da Downtown Framingham Inc., organização que atua no fortalecimento do comércio e dos pequenos negócios.

Para Rogers De Marco, presidente da CDL-GV, a experiência ajudou a ampliar a compreensão sobre as necessidades dos brasileiros que vivem nos Estados Unidos e sobre os modelos de organização comunitária adotados por lá.

Ele destaca a valorização do comércio local e o planejamento de longo prazo como práticas que podem inspirar iniciativas em Valadares.

“É uma série de experiências que nós temos que aprofundar. Acho que vale a pena estudar de que forma podemos trazer isso para Governador Valadares”, afirma.

Uma casa virtual para quem precisa de orientação

O Cooperação sem Fronteiras já está em funcionamento. O site oficial do programa foi lançado em julho e funciona como uma espécie de casa virtual para brasileiros que vivem no exterior ou estão planejando voltar ao país.

Na plataforma, é possível encontrar informações, orientações para preparar o retorno e um formulário para solicitar consultoria gratuita. O interessado pode indicar se precisa de apoio para investir, empreender ou esclarecer dúvidas fiscais e documentais. A equipe recebe a solicitação e organiza o atendimento, inclusive de forma virtual, considerando o fuso horário de quem está fora do Brasil.

A estrutura também conta com um comitê consultivo e uma rede de instituições parceiras para encaminhar demandas específicas. A intenção é ampliar o acesso à orientação sem exigir que o migrante se torne associado de uma instituição ou contrate outros serviços para receber apoio.

Para Silas, o compromisso central é com as pessoas atendidas. O programa, segundo ele, deve continuar ajudando mesmo quando o migrante optar por buscar soluções fora das instituições parceiras.

Mais do que incentivar investimentos, a iniciativa pretende contribuir para que o retorno ao Brasil seja planejado com antecedência, informação e apoio técnico.

A história de Carlos mostra o quanto a distância, a saudade e as dificuldades financeiras podem tornar esse caminho mais complexo. O Cooperação sem Fronteiras aposta na orientação como ferramenta para que outros brasileiros possam escrever um capítulo diferente: com mais preparo para investir, empreender e reconstruir a vida perto de casa.

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