
Missão em cidades dos Estados Unidos ampliou parcerias para fortalecer a rede de apoio
GOVERNADOR VALADARES – Carlos deixou Governador Valadares em 2008 com um objetivo: construir uma vida melhor nos Estados Unidos. Na época, era casado, tinha um filho de dois anos e a esposa estava grávida. Partiu antes do nascimento da filha e, durante anos, acompanhou seu crescimento apenas por fotografias.

Nos Estados Unidos, trabalhou na construção civil e com pintura, passando pela Flórida e por Boston. Depois de cerca de cinco anos, decidiu voltar ao Brasil. Tinha economizado dinheiro, mas também carregava a saudade e as marcas de uma longa separação familiar. Queria recuperar o tempo perdido e reconstruir a vida ao lado dos filhos.
De volta a Valadares, resolveu empreender. Abriu uma construtora e conquistou reconhecimento pela qualidade dos imóveis que entregava. O negócio, porém, não resistiu às dificuldades administrativas. Sem conhecer suficientemente os processos de regularização de imóveis e os custos tributários, viu o empreendimento encerrar as atividades em menos de cinco anos. Hoje, trabalha novamente como mestre de obras e alimenta o sonho de voltar aos Estados Unidos.
Carlos é um nome fictício, mas sua história é real. Como a dele, há outras trajetórias de brasileiros que deixam o Leste de Minas em busca de oportunidades no exterior e, ao retornar, encontram obstáculos para reorganizar a vida financeira, abrir um negócio ou planejar o futuro.

Em uma região marcada pela imigração, a expectativa de voltar com dinheiro suficiente para mudar de vida pode se transformar em pressão. Nem sempre a experiência acumulada no exterior vem acompanhada de conhecimento sobre gestão empresarial, investimentos e obrigações fiscais no Brasil. Quando os planos não saem como esperado, as consequências podem atingir também a vida familiar e emocional.
É nesse cenário que surgiu o Cooperação sem Fronteiras, programa do Sicoob Crediriodoce, desenvolvido em parceria com o Sebrae e outras instituições. A iniciativa oferece orientação gratuita a brasileiros que vivem no exterior e a migrantes retornados, com foco em educação financeira, empreendedorismo, investimentos e regularização documental.
A proposta é ajudar essas pessoas a tomar decisões com mais informação, evitar perdas e transformar o dinheiro conquistado com anos de trabalho em oportunidades sustentáveis de recomeço.

Uma rede para apoiar quem está longe
Em outubro, uma missão internacional do Cooperação sem Fronteiras percorreu cidades de Massachusetts e Connecticut, nos Estados Unidos, para aproximar o programa das comunidades brasileiras e ampliar parcerias. A comitiva reuniu representantes do Sicoob Crediriodoce, do Sebrae e da Câmara de Dirigentes Lojistas de Governador Valadares (CDL-GV). A comitiva foi formada por Silas Dias Costa Júnior, diretor de Negócios do Sicoob Crediriodoce; Jaqueline Alves, coordenadora do Cooperação sem Fronteiras; Andrew Boy, analista do Sebrae; Rogers De Marco, presidente da CDL-GV; e Sérgio dos Santos Reis, professor e doutor em Contabilidade, especialista em saída fiscal.
A agenda incluiu encontros com lideranças comunitárias, representantes públicos e instituições ligadas ao desenvolvimento econômico. Também foram realizadas orientações sobre educação financeira, empreendedorismo e planejamento patrimonial.
Um dos principais resultados foi a assinatura de um protocolo de intenções e parceria institucional entre o Sicoob Crediriodoce, o Sebrae Minas e a Baptist Churches of New England (BCNE), organização presidida pelo pastor Lierte Soares e que reúne mais de 400 igrejas na região da Nova Inglaterra.
Para Silas Dias Costa Júnior, diretor de Negócios do Sicoob Crediriodoce, o programa nasceu da necessidade de reduzir os prejuízos enfrentados por parte dos migrantes e ampliar os benefícios que os recursos enviados do exterior podem gerar para toda a comunidade.
“Se o migrante ganhar, se for bem-sucedido, quem ganha? Ganhamos todos nós, ganha a comunidade”, afirma.
Silas observa que Valadares recebe recursos enviados por brasileiros que trabalham no exterior, mas considera que esse dinheiro ainda poderia contribuir mais para o desenvolvimento local. Para ele, a falta de planejamento pode comprometer tanto o patrimônio das famílias quanto as oportunidades de geração de emprego e renda.
O programa busca atuar justamente nessa lacuna, oferecendo orientação para que o migrante possa organizar as finanças, avaliar investimentos e estruturar um negócio antes de comprometer suas economias.
“Do sonho à realidade, tem uma distância gigante”, resume Silas, ao falar sobre a importância da preparação para empreender.
Informação antes de investir
A coordenadora do Cooperação sem Fronteiras, Jaqueline Alves, explica que a iniciativa foi estruturada para encaminhar cada demanda a profissionais e instituições capazes de oferecer o suporte adequado.
O atendimento contempla pessoas que desejam investir, abrir uma empresa ou esclarecer dúvidas sobre sua situação documental e fiscal. O programa conta com consultorias gratuitas de investimento, apoio do Sebrae para negócios e encaminhamento a especialistas em questões tributárias e documentais.
“Hoje, o pilar é o empreendedorismo e investimento”, explica Jaqueline. Segundo ela, a rede também busca parceiros especializados para atender outras necessidades que surgem durante o processo de retorno.
A experiência mostra que ter dinheiro para investir não significa, necessariamente, estar preparado para administrar uma empresa. Sem conhecimento técnico, planejamento e acompanhamento, uma economia acumulada durante anos pode ser comprometida em pouco tempo.
Jaqueline relata casos de pessoas que investiram todas as suas economias em negócios indicados por conhecidos, sem avaliar adequadamente o potencial da atividade ou as exigências de gestão. Algumas perderam dinheiro e precisaram voltar ao exterior para tentar reconstruir o patrimônio.
Em contrapartida, ela cita histórias de migrantes que buscaram orientação, conseguiram estruturar seus empreendimentos e hoje geram oportunidades de trabalho.
“Por meio do programa, queremos que essas pessoas sejam bem-sucedidas”, afirma.
A vida fiscal também exige planejamento
A organização da vida financeira não se limita às economias e aos investimentos. Para quem mora fora do Brasil, compreender as obrigações fiscais e as consequências de uma eventual saída fiscal é uma etapa importante do planejamento.
Durante a missão, o professor e doutor em Ciências Contábeis Sérgio dos Santos Reis ofereceu orientações sobre o tema. Na US Brazil Trade Show, em Framingham, a comitiva também promoveu atendimentos gratuitos sobre saída fiscal, consulta de dados e criação de contas GOV.BR.
Segundo o especialista, a decisão de formalizar a saída fiscal pode ter consequências para contas bancárias, investimentos, rendimentos e outros vínculos financeiros mantidos no Brasil. Por isso, ele recomenda analisar cada situação antes de tomar uma decisão.
A orientação individual é importante porque as regras e os efeitos variam conforme as circunstâncias de cada contribuinte. A situação de quem mantém imóveis alugados, investimentos, rendimentos ou benefícios no Brasil pode exigir cuidados específicos.
O programa pretende facilitar o acesso a informações e a profissionais que ajudem os brasileiros a compreender suas obrigações e a organizar a documentação. A proposta não é oferecer uma solução única para todos, mas ajudar cada pessoa a avaliar as alternativas disponíveis com mais segurança.
Na prática, esse suporte pode evitar decisões precipitadas e dificuldades para movimentar recursos ou regularizar pendências durante o retorno.
Aprender com outras experiências
Além de divulgar o programa, a missão buscou conhecer iniciativas que possam inspirar ações de desenvolvimento em Governador Valadares.
Em Boston, a comitiva visitou o Consulado-Geral do Brasil e se reuniu com o cônsul-geral, embaixador Santiago Irazabal Mourão, e com a cônsul-geral adjunta, ministra Maria Helena Pinheiro Penna. O encontro abordou demandas da comunidade brasileira e possibilidades de cooperação nas áreas de educação financeira, empreendedorismo, organização patrimonial e planejamento para a aposentadoria.
A agenda incluiu ainda uma visita ao Departamento de Planejamento da Prefeitura de Boston, onde a comitiva conheceu práticas relacionadas ao desenvolvimento urbano, ao uso de dados e à participação comunitária.
Em Framingham, houve reuniões com a deputada estadual de Massachusetts Priscila Sousa, representantes da Framingham Business Association e integrantes da Downtown Framingham Inc., organização que atua no fortalecimento do comércio e dos pequenos negócios.
Para Rogers De Marco, presidente da CDL-GV, a experiência ajudou a ampliar a compreensão sobre as necessidades dos brasileiros que vivem nos Estados Unidos e sobre os modelos de organização comunitária adotados por lá.
Ele destaca a valorização do comércio local e o planejamento de longo prazo como práticas que podem inspirar iniciativas em Valadares.
“É uma série de experiências que nós temos que aprofundar. Acho que vale a pena estudar de que forma podemos trazer isso para Governador Valadares”, afirma.
Uma casa virtual para quem precisa de orientação
O Cooperação sem Fronteiras já está em funcionamento. O site oficial do programa foi lançado em julho e funciona como uma espécie de casa virtual para brasileiros que vivem no exterior ou estão planejando voltar ao país.
Na plataforma, é possível encontrar informações, orientações para preparar o retorno e um formulário para solicitar consultoria gratuita. O interessado pode indicar se precisa de apoio para investir, empreender ou esclarecer dúvidas fiscais e documentais. A equipe recebe a solicitação e organiza o atendimento, inclusive de forma virtual, considerando o fuso horário de quem está fora do Brasil.
A estrutura também conta com um comitê consultivo e uma rede de instituições parceiras para encaminhar demandas específicas. A intenção é ampliar o acesso à orientação sem exigir que o migrante se torne associado de uma instituição ou contrate outros serviços para receber apoio.
Para Silas, o compromisso central é com as pessoas atendidas. O programa, segundo ele, deve continuar ajudando mesmo quando o migrante optar por buscar soluções fora das instituições parceiras.
Mais do que incentivar investimentos, a iniciativa pretende contribuir para que o retorno ao Brasil seja planejado com antecedência, informação e apoio técnico.
A história de Carlos mostra o quanto a distância, a saudade e as dificuldades financeiras podem tornar esse caminho mais complexo. O Cooperação sem Fronteiras aposta na orientação como ferramenta para que outros brasileiros possam escrever um capítulo diferente: com mais preparo para investir, empreender e reconstruir a vida perto de casa.

