Por que Jogos Vorazes A Esperança ainda é o capítulo mais ousado de toda a saga de Katniss

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Quando se assistir jogos vorazes A Esperança Parte 1, o que muitos fãs da saga percebem é que este não é o filme que esperavam. Não há arena. Não há jogos. Katniss não está competindo, está sendo transformada em símbolo de uma revolução que ela não escolheu liderar, e o filme tem a coragem de mostrar como esse processo funciona de formas que não são gloriosas nem inspiradoras no sentido convencional da palavra.

O que Mockingjay Parte 1 recusou fazer

A maioria das sagas de ficção científica distópica voltadas ao público jovem adulto tem, em algum ponto, o momento catártico onde a protagonista abraça o papel de heroína e parte para a ação. Katniss Everdeen em A Esperança Parte 1 recusa consistentemente esse momento. Ela foi resgatada de forma traumática, está com TEPT não diagnosticado, oscila entre choro e raiva, e quando tenta ser a “torchbearer” que a resistência precisa para um vídeo de propaganda, não consegue.

A cena onde o diretor de cinema da resistência percebe que Katniss só funciona quando age por impulso genuíno, não quando está sendo dirigida, é uma das observações mais inteligentes que qualquer filme da saga faz sobre a diferença entre performance e autenticidade em contextos de comunicação política.

 

A propaganda como tema central

A Esperança Parte 1 é, antes de tudo, um filme sobre propaganda. Ambos os lados da guerra, o Capitólio e a resistência do Distrito 13, usam imagens, narrativas cuidadosamente construídas e figuras simbólicas para mobilizar populações. A diferença, o filme sugere, não é necessariamente de método, mas de para que o poder está sendo usado.

Beetee hackeando os sistemas do Capitólio para transmitir os vídeos da resistência é o espelho direto da forma como Snow usou os Jogos para manter controle há décadas. A consciência do filme sobre essa equivalência é o que o torna mais politicamente honesto do que qualquer outra entrega da saga.

 Jennifer Lawrence e a performance que o formato exigiu

Jennifer Lawrence ganhou o Oscar de Melhor Atriz dois anos antes de A Esperança Parte 1, e a comparação com o trabalho que fez em Ree em Winter’s Bone, a performance que a lançou, é inevitável. O que ela faz como Katniss traumatizada neste capítulo específico é sutilmente diferente de qualquer outra entrega da saga: menos a arqueira competente, mais a jovem que foi colocada numa situação que excede completamente o que ela tinha capacidade de processar.

 A franquia Jogos Vorazes e o gênero distópico para jovens adultos

A publicação da trilogia Jogos Vorazes entre 2008 e 2010 coincidiu com o pico de interesse do mercado editorial e cinematográfico no gênero de ficção científica distópica voltada para jovens adultos. Twilight havia demonstrado que o público jovem adulto tinha apetite e poder de compra para franquias de ficção especulativa, e Jogos Vorazes mostrou que esse público também respondia a narrativas com substância política e consequências morais sérias.

O impacto cultural foi imediato: Divergente, Maze Runner e outros títulos seguiram rapidamente, cada um tentando replicar a combinação de protagonista jovem, mundo alternativo e crítica social que Suzanne Collins havia executado com tanta eficácia. A maioria das imitações não conseguiu porque replicou a estrutura sem a profundidade temática. 

Por que Katniss Everdeen importa como personagem

Em 2008, heroínas de ficção científica para jovens adultos eram frequentemente definidas pela sua relação com o protagonista masculino ou pela sua excepcionalidade físicacomoaspecto principal da personalidade. Katniss foi construída de forma diferente: ela é boa naquilo que faz (arco e flecha, sobrevivência, caça), mas sua característica definitiva é a capacidade de cuidar dos que dependem dela, mesmo quando isso tem custo enorme para si mesma.

Essa combinação de competência prática com motivação emocional primária não em relação romântica mas em proteção familiar criou um personagem que ressoou com uma amplitude que a maioria das protagonistas de ação raramente alcança. A identificação não exigia que você se imaginasse como alguém excepcionalmente habilidoso: exigia apenas que você tivesse alguém de quem se importava profundamente.

O drama como exercício de perspectiva

Uma das funções mais valiosas que o drama cinematográfico e televisivo cumpre é a de oferecer perspectivas sobre experiências que o espectador nunca viveu diretamente. Ver a história pelo ponto de vista de alguém de classe social diferente, de outra cultura, de outro período histórico ou de outro contexto de vida desenvolve capacidade empática de formas que a experiência direta, necessariamente limitada ao que é possível viver numa única vida, não pode proporcionar.

Pesquisas em psicologia cognitiva mostram que espectadores regulares de drama de qualidade demonstram pontuações consistentemente mais altas em testes de teoria da mente, a capacidade de compreender que outras pessoas têm perspectivas, motivações e estados internos diferentes dos seus. Esse efeito não é coincidência: é resultado direto de praticar regularmente a experiência de habitar perspectivas ficcionais diferentes da própria.

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