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Especial em homenagem ao Dia Internacional da Mulher

Mulheres no Mercado de Trabalho: a luta por igualdade

Subestimar e reduzir a inteligência e capacidade feminina de exercer atividades majoritariamente masculinas em pleno século XXI é ultrajante

Por Tatiana Silva

Nenhuma conquista feminina foi ou é obtida sem luta. Contudo a história nos mostra que, apesar dos direitos e liberdades que usufruímos hoje em dia, muito ainda nos é cerceado pela reles questão de gênero. Portanto subestimar e reduzir a inteligência e capacidade feminina de exercer atividades majoritariamente masculinas, em pleno ano de século XXI, é ultrajante. Em contrapartida, felizmente, muitas mulheres seguem lutando diariamente para quebrar as barreiras impostas pelo patriarcado.

De acordo com a Socióloga e Pesquisadora Sueli Siqueira, a posição da mulher de subalternidade, invisibilidade, em relação a conhecimento, e até mesmo de ser liderança na vida econômica, é resultado de todo um processo cultural da civilização ocidental, que colocou a mulher nessa posição de inferioridade. “Culturalmente, a própria mulher repassava essa ideia. Qual era o lugar da mulher? O lugar da mulher era na cozinha, na casa, cuidando dos afazeres domésticos. Então, as próprias mães ensinavam isso para suas filhas, elas também transmitiam esse conjunto de valores como cultural”, destacou.

Suely Siqueira

Assim também a própria pesquisadora relata já ter sido vítima de preconceito em sua área de trabalho. “O preconceito está sempre presente. Para produzir, publicar, apresentar uma ideia nova, e, principalmente, quando se vai a eventos internacionais, como na Europa, enfrenta-se até um preconceito duplo, por ser mulher e latina”, disse.

O preconceito no meio acadêmico

Sueli destaca, ainda, que, o preconceito às vezes fica nas entrelinhas. “Às vezes quando há um debate, uma discussão no meio acadêmico, você tem que dar uma resposta à altura. Porque você vê às vezes o homem levantando a voz, como uma forma de dizer: ‘eu posso falar mais alto’. Você tem que falar, ele não pode falar mais alto não.”

A Doutoranda em Química Orgânico Francielly Souto acredita que qualquer mulher que diga que nunca sofreu algum tipo de preconceito na academia, ou está minimizando a situação ou não se deu conta do problema. “O preconceito é, em geral, velado. O que eu percebo com maior recorrência é a expectativa de que sejamos sempre subservientes. Se opinamos de forma resistente e segura, somos chamadas de arrogantes, histéricas em situações extremas. Eu mesmo já recebi mensagem de um colega de laboratório com um texto pronto sobre arrogância”, relatou.

Francielly Souto

Situações de preconceito

“Se conseguimos bons resultados é porque somos ‘favoritas’ ou estamos nos relacionando com alguém. Se não conseguimos, não trabalhamos o bastante porque ‘não é projeto para mulher, é cansativo’. E é sim cansativo, principalmente, porque esse tipo de comentário não chega só da parte masculina”, observou Francielly.

Aliás ela viu sua turma de graduação, com cerca de 60% de mulheres, reduzir na medida em que avançava na pesquisa/pós-graduação. “A escolha começa a surgir de forma nítida: trabalhar 60, 70, 80 horas por semana para ter o mínimo de respeito ou construir uma família? Ou cuidar dos pais? Claro que temos exceções. Mas por que só devemos ter exceções femininas? E, mais ainda, por que deveriam ser exceções?”

Francielly relata ainda que, diferente de quando era mais jovem, hoje ela reage diante de situações de preconceito. “Não deixo de apontar problemas no trabalho dos outros por medo de não gostarem de mim. Sou arrogante por fazer o meu trabalho? Se recebo mensagens de assédio em redes sociais vindas de pesquisadores, exponho. Eu acho que aprendi que estou em uma posição privilegiada. Sou branca, heterossexual, padrão. Se eu não uso esse privilégio para reagir, só estou sobrecarregando a luta de grupos que sofrem muito mais”, ressaltou.

O preconceito no esporte

Em 2016, a Advogada Prisciliana Maciel decidiu que iria lutar muay thai. Em 2018 deixou o emprego em uma empresa de saúde suplementar para dedicar-se exclusivamente a esse esporte que, assim como tantos outros, é dominado por homens. “Quando comecei a treinar, passei por algum preconceito, especialmente entre os amigos e no próprio local onde treinava. Aliás a cada etapa, os preconceitos foram diferentes. Em 2018 morei por meses na Tailândia em razão da luta, e o que eu mais ouvi era: como seu marido ‘deixou’? – Hoje, sou a pessoa com mais lutas profissionais de muay thai em toda a região de Valadares. Isso faz com que haja um respeito, e o preconceito seja calado. Mas a verdade é que uma mulher precisa trabalhar muito e se provar bem mais pra alcançar o respeito que um homem facilmente teria. A parte boa é que a gente sabe fazer isso”, disse.

Prisciliana Maciel

Prisciliana afirma ter se encontrado no esporte. “Hoje, muay thai é literalmente minha vida. É meu trabalho, é meu negócio e, mesmo depois de tanto tempo, é minha paixão. Ainda hoje são os treinos de muay thai que me relaxam, que mantêm meu corpo e mente fortes. É também minha maior realização ensinar e proporcionar esse esporte a tantos alunos. É como compartilhar o que eu tenho de melhor. Assim que sinto”, compartilhou.

Mulheres cuidando da segurança

Adeliana Xavier Santos

De acordo com a Delegada de Polícia Adeliana Xavier Santos, apesar de vivermos numa sociedade machista e o preconceito estar enraizado nas pessoas, hoje ela lida com tranquilidade quando alguém se surpreende com sua profissão. “Vez ou outra ainda ouço: você é Delegada de Polícia? Não tem medo, não? E sempre dou a seguinte resposta: – Tenho muito medo, mas isso não me impede de fazer um excelente trabalho e, tampouco, congela minha determinação. – Fico engrandecida quando após o atendimento, a pessoa fica surpresa com minha competência e grau de empatia. Já ouvi inúmeras vezes a seguinte frase: ‘que bom que é você quem está à frente da investigação, obrigada’”, disse.

Enquanto Lucilene Marinho do Nascimento, 2º Sargento do Corpo de Bombeiros Militar de Minas Gerais, as pessoas de um modo geral sempre ficam muito surpresas com sua profissão. “As mulheres, especialmente as de mais idade, costumam tecer muitos elogios, muitas vezes fazem preces, agradecem e pedem a Deus pela minha vida. É uma admiração emocionada, acho que reflete uma espécie de orgulho feminino”, relatou.

Lucilene Marinho dos Santos

O empoderamento feminino e a ideia de igualdade de gênero

Para a pesquisadora Sueli Siqueira, o empoderamento é a maior conquista da mulher do século XXI. “A mulher se perceber, se sentir como um ser capaz, um ser que pode realizar seus projetos, desejos, ter uma profissão, buscar a felicidade, e conduzir a própria vida, independentemente de ter ou não um homem ao seu lado, essa é a grande conquista”, afirma.

“É importante a mulher também pensar, que nós somos instrumentos de reproduzir a ideia de igualdade de gênero, pois essa bandeira é importantíssima, e nós temos que carregar. Defender sempre essa ideia, porque sempre vamos encontrar pela frente, pessoas que consideram que a ida da mulher para o mercado de trabalho é um problema. Somos responsáveis por transmitir para as novas gerações a ideia da igualdade de gênero”, enfatizou.