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Especial em homenagem ao Dia Internacional da Mulher

Coragem
e eficiência

Conheça mulheres que trabalham em áreas de predominância masculina em Valadares

Mulheres relatam que seus trabalhos são um combate diário ao preconceito. Na foto, Márcia Aparecida – FOTO: Arquivo pessoal

Por Carolina Moreira

Em um país onde, durante muito tempo, mulheres não tinham acesso a direitos comuns – como o voto -, trabalhar em ambientes predominados por homens parecia algo bem distante da nossa realidade.

Mas, apesar de ainda haver uma extensa discussão de direitos, deveres e espaço entre homens e mulheres, uma coisa precisamos admitir: elas estão cada dia mais destemidas e compromissadas com a independência financeira.

Márcia Aparecida Souza, de 57 anos, é uma prova disso. Márcia é pintora. Mas, para ela, mais importante do que qualquer preconceito é ‘ganhar dinheiro’. Há 8 anos atuando com o marido (com quem aprendeu os ofícios), ela se declara uma mulher feliz, realizada e orgulhosa do que faz: “Não consigo ficar sem trabalhar. Gostei da profissão e gostei do dinheiro também”, brinca a profissional.

Márcia Aparecida trabalha há 8 anos com o marido em obras civis

Uma “obra” do acaso…

Mas se engana quem pensa que Márcia Aparecida sempre quis atuar nessa profissão. Ou seja, a mulher, que hoje é conhecida como pintora, já trabalhou durante 20 anos como cabeleireira e manicure. O interesse surpreendente pela profissão, até então exercida pelo marido, surgiu por acaso.

Ela foi até a obra em que o marido estava trabalhando, numa escola, levar o almoço dele. Então se encantou ao ver um trabalho de pintura que o marido fazia naquele momento. No mesmo instante, ela pediu ao esposo que a ensinasse e a deixasse ajudá-lo. O marido logo atendeu. Depois desse dia, ela nunca mais deixou as atividades como pintora.

Nesta manhã (7), o casal pintava uma casa atingida pela cheia do rio Doce em Valadares

Além de pintora, Márcia Aparecida é pedreira, auxilia na venda de imóveis, vende semijoias e ainda é pastora de uma comunidade evangélica. A igreja que será liderada por ela ainda está sendo erguida. Márcia Aparecida é quem comanda e atua na obra.

Márcia Aparecida é pastora e está construindo a igreja onde exercerá sua missão cristã – FOTO: Arquivo pessoal​

A profissional relata que trabalhar em obras civis é uma quebra de paradigmas diária. De acordo com a pintora, muitas pessoas ainda duvidam de sua capacidade no que faz. “São poucas mulheres que trabalham de pintora. Então, eles sempre perguntam. Tem uns que valorizam, acreditam; e tem uns que não acreditam”, comenta. Ela chegou a relembrar uma ocasião em que precisou concluir todo o serviço – contra a vontade do contratante – para provar que era, sim, eficiente.

Ela também se alegra ao contar do sucesso que conquistou ao longo dos anos mostrando, na prática, seu potencial. “Onde eu estou [trabalhando], as pessoas passam e querem um trabalho nosso. Tem uns que acham que mulher não consegue fazer, mas eu tenho mostrado”, reforça.

“Olá, a eletricista chegou!”

Ao acionar os serviços de uma empresa de eletricidade para manutenção na casa ou em equipamentos, muitos valadarenses se surpreendem com esta cena:

Ronaldo Roque é assistente administrativo e, nesta manhã (7), contou com a habilidade de Maria Helena Jorge para solucionar um problema no quadro de energia da sua casa. Ele conta que se surpreendeu ao vê-la. Sobretudo, afirma ter ficado feliz com o significado da presença de Maria Helena em um cenário onde a maioria dos trabalhadores são homens.

“Não estou acostumado a ver. Mas, pra mim, tudo bem, tranquilo. Vi que é muito bom uma equipe diversificada. Gostei demais. E o serviço perfeito”, elogia o morador.

Maria Helena realizou o conserto do quadro de energia juntamente com um amigo eletricista

Maria Helena tem 49 anos e, há 10, trabalha como eletricista. Natural de Tarumirim, ela aprendeu a função com seu amigo e também companheiro de trabalho, José Campos. Ele conta que percebeu o potencial da eletricista quando ela realizava pequenos ajustes em sua própria casa. Então o amigo deu a ela uma missão: realizar um serviço que era dele. José assumiu para si todos os riscos e confiou na amiga. Foi então que Maria Helena comprovou o que ele já sabia.

“O esposo dela que trabalhava comigo. Então ela estava esperando ele, sentada no meio-fio [no endereço onde os dois trabalhavam], e eu perguntei a ela: ‘Você quer trabalhar comigo? Vem cá que vou te dar um quadro para fechar’. Falei com ela: ‘Se vira’. E quando voltei, estava pronto”, conta.

José Campos foi quem enxergou o potencial de Maria Helena para a profissão

“Fecho quadro, troco tomadas, faço tomadas novas, coloco ventilador, lâmpadas, chuveiro; coloco a parte elétrica da casa etc. Hoje até que é mais tranquilo, mas no início as pessoas achavam muito difícil para uma mulher. É um serviço complicado, perigoso, de responsabilidade, mas sinto muito orgulho. Amo o que faço”, declara.