Tempos Difíceis

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Após amargar profunda e prolongada crise estrutural, que teve seu pico em 2008, a indústria mundial viveu um lento processo de crescimento. A economia brasileira foi fortemente afetada, com a desindustrialização precoce, em consequência das políticas neoliberais implantadas na década de noventa, bem como da preponderante influência da indústria chinesa. A ausência de uma política industrial (o Plano Brasil Maior terminou em 2013) trouxe, em consequência, maior dependência externa e perda de valor agregado, levando a uma desarticulação das cadeias produtivas e abandono das atividades que requerem uso de capital intensivo (inovação tecnológica). Nesse caso, predomina a escolha de setores que privilegiam commodities – menor intensidade tecnológica e uso de mão de obra intensiva. Em outras palavras, estamos assistindo o Brasil caminhar em direção à primarização, desindustrialização e desnacionalização da economia. O PIB (conjunto de riquezas produzidas em um país no período de um ano) do Brasil está estagnado no patamar de 2012.

Nesse ambiente de “primarização” da economia brasileira, o “academicismo” que toca o país passa a encontrar um grande nível de resistência à inserção no mercado de trabalho de um contingente de mão de obra que “até” tem formação (superior), mas não terá oportunidade de trabalho, uma vez que as vagas de emprego criadas são de baixa demanda educacional.

Nos anos 90, a produtividade brasileira correspondia a 25% da americana; nada mudou até os dias atuais. De acordo com estudo da Conference Board, consultoria internacional, no ano de 2016, cada brasileiro produziu, em média, US$ 30.265, enquanto o americano gerou US$ 121.260. Num ranking de 124 nações, 76 países superam o Brasil em produtividade. O gap de produtividade condena o Brasil a amargar um papel secundário/periférico na economia mundial, que deverá manter o país ainda por muito tempo na categoria de “renda média baixa”.

Em relação ao crescimento da economia mundial, a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) estima uma redução da ordem de 0,2% para o ano de 2019, tendo em vista o aumento da incerteza política, as tensões comerciais persistentes e uma contínua redução da confiança das empresas e dos consumidores. As restrições aplicadas em 2018 desaceleraram fortemente o comércio mundial, afetando o investimento e os níveis de vida, especialmente das pessoas com baixa renda.

Enquanto isso, outros fatos podem contaminar a economia mundial. Antes mesmo da finalização do processo de separação do Reino Unido da União Europeia, o jogo de forças do mercado já tem sua configuração alterada. Das empresas com sede na Grã-Bretanha, 42 foram transferidas para a Holanda no ano de 2018; juntas, essas empresas representam cerca de 291 milhões de euros em investimentos e 1.923 postos de trabalho. A OCDE ressalta o fato de que a aplicação de tarifas alfandegárias da Organização Mundial do Comércio irá causar, nos próximos dois anos, impacto negativo no PIB do Reino Unido da ordem de 2%. As consequências podem ser vislumbradas.

Precisamos nos preparar para tempos mais difíceis.

Zenólia M. de Almeida | Doutora em Gestão. Membro da Academia Valadarense de Letras. Escritório de Gestão de Projetos da Prefeitura de Governador Valadares.