Tempos de cegueira e escuridão: uma metáfora do cotidiano

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Como faziam todas as tardes, dois cegos se encontravam para prosear. Quebrando o silêncio, um deles foi questionando:

– Há quanto tempo estamos vivendo neste mundo escuro? Você se lembra daquela época em que conhecíamos a luz? Tudo era diferente! Tínhamos a luz mas não tínhamos as pessoas ao nosso redor. Hoje temos as pessoas que nos acompanham diariamente, sempre há alguém conosco, mas nos falta a luz! O que deveríamos fazer para voltarmos a enxergar?

O outro cego, depois de um tempo refletindo e espantado com as declarações do amigo, disse:

– Você está me fazendo pensar. Na verdade, nem me lembro o que nos levou a ficar cegos. Você, meu amigo, que é uma pessoa mais observadora, poderia me dizer qual o motivo que nos levou a ficar sem ver a luz?

O cego que esperava por uma resposta se espantou, ficando admirado com a profundidade do questionamento do amigo: o motivo da falta de luz.

Então, os dois começaram a conversar e buscar na história o momento exato em que ambos deixaram de ver a luz. Depois de muito diálogo chegaram a uma perigosa descoberta: a cegueira era proveniente de um reencontro com um ex-companheiro de bairro, que ousou dizer ser um condutor de vidas.

Mas, o que é um condutor de vidas? É uma profissão especializada em administrar os bens públicos. Sendo bem administrados os bens sociais, todos os envolvidos podiam ver a luz; sendo mal geridos, enraizará a escuridão por onde passar.

Então quer dizer que foi depois daquele encontro que ficamos cegos, que não conseguimos mais enxergar a luz? E agora, o que fazer? Como poderemos ver a luz novamente? Disse um dos cegos, afoito.

O outro respondeu:

– Resta-nos o diálogo, pois, assim fazendo, conseguiremos saber quais são as intenções do nosso ex-companheiro em nos manter cegos. Vamos conversar, trocar ideias… vamos buscar na história de nossas vidas a resposta para esta interrogação.

Assim foi feito, passaram horas e horas conversando, o diálogo durou meses. Até que eles chegaram a uma conclusão. Quando víamos a luz, conseguíamos trilhar nosso caminho, fazer nossa história. Éramos responsáveis pelos nossos atos, pelas nossas vidas, o triste é que não valorizávamos as pessoas. Depois que ele, apoiado pela nossa preguiça, começou a administrar nossas vidas, fomos perdendo a visão, e assim aceitando seus palpites e suas ordens. Não conseguíamos ver nada mesmo, deixávamos a nossa vida em suas mãos, e ele fazia o que queria para o seu proveito pessoal.

Hoje o tempo mudou, ainda não vemos a luz como antes, mas estamos dispostos a cada dia a chegar mais perto da claridade. E isso se fez pela transformação de nossas vidas. Hoje, sonhamos, queremos e lutamos! Acreditamos e valorizamos mais os seres humanos. Procuramos ser responsáveis pelas nossas atitudes e escolhas, queremos ser pessoas dotadas de liberdade e condições de ser felizes.

Walber Gonçalves de Souza é professor e escritor.