Quando é preciso reinventar para atingir os seus objetivos

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Janilza afirma que sofre discriminação quando se candidata a um trabalho pelo fato de ser médica e natural de Cuba.FOTO: Vitor Carlos M. Santana

Este é o desafio de milhares de profissionais liberais que, por motivos políticos, precisam deixar seu país em busca de melhores oportunidades em terras em que acreditam poder realizar seus sonhos e reaver sua liberdade

A grave crise política e econômica por que passa a Venezuela não está afetando apenas os venezuelanos, mas várias pessoas de outras nacionalidades que residem naquele país. Muitos deles também estão optando por deixar a Venezuela e procurar novas oportunidades em países com situação mais estável. Dentro desse contexto e, com as novas perspectivas com a posse do presidente Jair Bolsonaro, muitos profissionais liberais estrangeiros preferem deixar seu emprego para trás e vir para o Brasil, acreditando na retomada do seu desenvolvimento.

Um desses profissionais se tornou personagem de uma entrevista para o DIÁRIO DO RIO DOCE quando atendia silenciosamente aos fregueses da Pizzaria e Restaurante da Bárbara, que faz parte do espaço gourmet localizado na Passarela do Álcool, em Porto Seguro, Bahia, tradicional ponto de encontro de turistas do mundo todo, principalmente no Carnaval e nos vários shows de grandes bandas e artistas nacionais. E foi o comportamento da atendente, ao realizar suas tarefas, que chamou a atenção deste jornalista. A princípio, a suspeita que se teve era de que ela tinha deficiência de fala, pois apenas expressava alguns gestos quando servia, retirava copos, garrafas, pratos e talheres, passava o pano na mesa e a deixava limpa para o próximo cliente. Nada falava, no máximo respondia algo incompreensível.

Essa cena se repetiu várias vezes e isso aguçou a curiosidade. O silêncio da atendente não incomodava, mas chamava a atenção, porque o sentimento era de que ela poderia ter algum complexo ou se sentir constrangida de não poder retribuir as saudações dos clientes, agradecer as gorjetas ou até mesmo dar informações sobre o cardápio da casa, preços e informações turísticas, que sempre são solicitadas nessas oportunidades. No máximo ela expressava um sorriso meio desconcertante.

Como diz o ditado, a vida sempre nos traz surpresas, e o desfecho dessa curiosa observação  mostrou outra realidade, que justificava o comportamento da silenciosa atendente. Na tarde do dia 10 de janeiro veio a surpresa. Enquanto aguardava a esposa e os filhos que estavam passeando em um shopping em frente à pizzaria, de repente ouvi uma conversa atrás da mesa e, como uma das tagarelas garçonetes falava num misturado “portunhol”, virei-me. E quem estava a falar? Ninguém menos que Janilza Cuevas, 39 anos, natural da província de Guantánamo, localizada ao sul de Cuba, com extensão territorial de 116 quilômetros quadrados e sede de uma Base Naval dos Estados Unidos. É uma região muito conhecida por abrigar a prisão de Guantánamo, onde estão presos políticos acusados de atos terroristas, inclusive os que participaram dos atentados às torres gêmeas (World Trade Center), no dia 11 de setembro de 2001. Até aí tudo bem, mas o diálogo seguiu, já em uma entrevista que ela aceitou de pronto conceder para contar a sua história, que é no mínimo muito interessante.

Quem é Janilza Cuevas?

Sou natural da província de Guantánamo, em Cuba.

Você trabalhava em quê no seu país?

Sou médica e cheguei há quatro meses ao Brasil. Sou formada há 15 anos em Medicina Geral e tenho diploma de Terapia Intensiva e Urgência e Emergência Médica (UTI). Trabalhei no programa Mais Médicos na Venezuela por algum tempo e depois resolvi vir para o Brasil, onde entrei como refugiada política.

Você fazia parte do Programa Mais Médicos aqui no Brasil?

Não, só trabalhei como participante do programa na Venezuela.

E por que resolveu vir para o Brasil?

O tempo que trabalhei na Venezuela foi muito bom. A população me acolheu muito bem durante determinado período, mas depois a situação econômica e política se agravou com as medidas tomadas pelo presidente Nicolas Maduro. Então decidi vir para o Brasil em busca de novas oportunidades, para poder ganhar dinheiro e ajudar a minha família que ficou em Cuba.

Como foi a sua viagem para o Brasil?

Eu demorei uma semana para entrar na fronteira e tive muito trabalho e dificuldades para fazer o trajeto durante a viagem, mas consegui chegar e ficar.

Veio andando como os demais refugiados venezuelanos?

Sim, caminhei bastante. Depois peguei dois táxis e dois ônibus, e isso tudo demorou vários dias. Mas estava determinada e por isso tive muita persistência em alcançar o meu objetivo, que era chegar e viver no Brasil.

E como você chegou à Bahia, mais precisamente a Porto Seguro?

Eu tenho um amigo que é médico cubano e trabalha como cirurgião estético aqui no Brasil. E ele e sua esposa me falaram para vir para Porto Seguro, porque era uma cidade turística e eu poderia  encontrar mais facilidades de trabalho.

E qual foi o primeiro emprego que você conseguiu aqui em Porto Seguro?

Foi este aqui na pizzaria onde trabalho atendendo aos turistas. Esta foi a única oportunidade que encontrei, porque entreguei diversos currículos nos hotéis da cidade e região, mas quando viam que eu tinha curso superior ou a formação de médica cubana eles me reprovavam.

Quando você estava trabalhando como médica em Cuba qual era o salário?

Em Cuba eu ganhava 500 pesos cubanos, que equivalem a 20 dólares americanos.

E por que você não exerce a Medicina no Brasil?

Eu não posso exercer minha profissão, posto que eu ainda tenho que estudar para o teste Revalida, para conseguir o registro no Conselho Regional de Medicina (CRM) no Brasil e poder trabalhar legalmente. E é isso que vou fazer nos próximos meses, mas antes tenho que ganhar dinheiro para minha sobrevivência aqui no país e também mandar ajuda financeira para a minha família em Cuba.

E como você está sobrevivendo em Porto Seguro, visto que o custo de vida é bem alto?

Antes de ter conseguido este emprego, quem me ajudava financeiramente era minha irmã que reside nos Estados Unidos com o marido. Tem também meu tio e meu primo, que estavam pagando o meu aluguel e a minha alimentação, mas agora estou me esforçando para conseguir ganhar dinheiro para cobrir minhas necessidades básicas com este trabalho que eu consegui aqui na pizzaria.

Qual é o seu projeto de vida a partir de agora?

Eu tenho que estudar muito para fazer o Revalida, conseguir o CRM e trabalhar legalmente como médica, para atender as pessoas aqui no Brasil e também ganhar dinheiro suficiente para mandar para a minha família em Cuba.

Quais são os seus familiares que ficaram em Cuba e que precisam de sua ajuda?

Tenho um filho de seis anos e uma menina de 12 anos, minha mãe, meu avô e meus tios, que são poucos, mas que formam uma família muito unida. Por isso eu preciso trabalhar muito para conseguir uma quantia suficiente em dinheiro para poder enviar a Cuba e custear a alimentação deles.

Alimentação? Por quê?

Porque o governo cubano disponibiliza um cartão de alimentação, mas o valor não cobre as necessidades de minha família e eles acabam tendo que complementar o que falta. Os alimentos custam muito caro e eu, mandando dinheiro, asseguro que pelo menos eles não vão passar pelas muitas dificuldades que passam hoje.

E como ficou sua situação em Cuba com você abandonando o programa Mais Médico na Venezuela e vindo para o Brasil?

Como ainda não tenho documentos brasileiros, porque o processo de asilo político não foi concluído, eu não posso retornar ao meu país.

Você sofrerá alguma retaliação do governo cubano por causa de sua atitude de desertar e entrar no Brasil como refugiada política?

Olha. Tenho como exemplos outros médicos cubanos que passam pela mesma situação que estou passando. Eles ficaram aqui no Brasil e sofreram uma punição de oito anos sem poder voltar a Cuba. Eu penso que, depois que tiver a documentação, irei pesquisar as leis do meu país e ver como conseguir retornar para rever meus familiares. Enquanto isso, é muito doloroso e triste conviver com a distância daqueles que fazem parte de você e que dependem de você. Eu tenho sofrido muito nos últimos meses por não poder ir abraçar meus parentes. É uma situação enfrentada por todos os cubanos que estão vivendo em outros países onde buscam oportunidades, porque vivemos uma situação econômica muito desfavorável em Cuba.

Como você define o Brasil?

O brasileiro é um povo que precisa de muito investimento nas áreas da saúde e da educação. No entanto, agora com o presidente Jair Bolsonaro, eu penso que eles terão muitas oportunidades de emprego e vão melhorar suas condições de vida. Acredito que o presidente Bolsonaro vai encontrar soluções na área econômica para reverter essas deficiências de forma que a população possa ter trabalho, emprego digno e que os brasileiros possam ser felizes junto de suas famílias, sem ter essa necessidade de buscar alternativas fora de seu país, como nós cubanos e os venezuelanos estamos vivendo.

por Raimundo Santana — Editor Passarela do Álcool — Porto Seguro/BA