Praça Aurita Franco Machado é tombada como patrimônio histórico

Localizada no entroncamento das ruas Marechal Floriano, Arthur Bernardes e João Pinheiro, a Praça mudou de nome em 2017, passando de “13 de maio” para Praça Aurita Franco Machado: Foto: Eduardo Lima

Foi realizada na noite de ontem a solenidade de tombamento histórico da Praça Aurita Franco Machado, a famosa Praça da “Mulher da Boca Aberta”. O espaço em que fica o busto de uma mulher com a boca aberta é um marco da participação feminina na história de Governador Valadares. A proposta de tombamento é uma iniciativa dos alunos do 8º período do curso de direito da Fadivale, que levaram o projeto para o Conselho Deliberativo de Patrimônio Histórico da Secretaria de Cultura, Esporte, Lazer e Juventude (SMCEL).

Localizada no entroncamento das ruas Marechal Floriano, Arthur Bernardes e João Pinheiro, a praça mudou de nome em 2017, passando de “13 de maio” para Praça Aurita Franco Machado, uma mulher que, em 1964, liderou um movimento que organizou na cidade, “a Marcha pela família com Deus pela liberdade”. O busto de Aurita Machado homenageia mulheres valadarenses que foram às ruas durante o regime militar em 1964.

A praça foi construída entre os anos de 1965 e 1966, pelo prefeito Joaquim Pedro Nascimento, com o nome de Praça 13 de Maio. Baseado nesse importante aspecto histórico, o Conselho Deliberativo de Patrimônio Histórico da Secretaria de Cultura, Esporte, Lazer e Juventude (SMCEL), recebeu dos alunos do 8º período do curso de direito da Fadivale – Ana Carolina Marques, Odilon Calixto e Ana Luiza Fagundes – a indicação para o tombamento da praça em meados de outubro de 2018.

O aluno Odilon Calixto explicou o motivo de ter levado o projeto de tombamento para a Prefeitura: “Tudo começou com um trabalho acadêmico de Direito Ambiental, proposto pela nossa professora Rosângela. Para a realização do trabalho, fomos até o setor de tombamento da Prefeitura, para fazer entrevistas. Lá nós entrevistamos os responsáveis pelo setor, o Kevin e a Carol. No final da entrevista, percebemos que a cidade possui uma quantidade pequena de bens tombados, e, tendo em vista o interesse pelo tema, o grupo propôs uma iniciativa para o tombamento de um monumento da cidade”, explicou.

Calixto falou ainda da importância da valorização de monumentos históricos no município. “Acontece que tombamento é um instituto pouco conhecido para a sociedade em geral, principalmente para uma cidade como Governador Valadares, que, diferente de cidades como Mariana e Ouro Preto, não possui tantos monumentos com um encargo histórico. E quando o símbolo é referente a uma pessoa, dizem que você morre duas vezes, uma quando você é enterrado e, a segunda, é na última vez em que alguém menciona o seu nome. Bom, com o ato de tombamento, a Aurita Franco Machado viverá por muito tempo, pois a mesma foi importante para a história da nossa cidade”, disse.

Para a professora e procuradora institucional da Fadivale, Fernanda Furtado Machado, tanto para a Fadivale quanto para a família Altino Machado, a homenagem engrandece o que significou a luta de Aurita Machado pela busca dos ideais femininos na época. “Aurita Machado, minha avó, de quem tenho um enorme orgulho e admiração e em quem busco a cada dia o exemplo de força e determinação, foi uma pessoa visionária, bem à frente do seu tempo. Com suas ações, certamente ajudou muitos cidadãos e cidadãs de Governador Valadares. A Fadivale, enquanto instrumento de empoderamento, muitas vezes utilizado com o incentivo e apoio dela, mudou a vida de muitas famílias e acabou absorvendo em sua missão esse caráter altruísta. Por tudo isso e muito mais que poderia ser dito sobre ela, recebemos com muito carinho e encantamento a notícia dessa homenagem proposta por nossos alunos Ana Carolina Marques, Odilon Calixto e Ana Luiza Fagundes”, disse.

Legado em defesa das mulheres na década de 60

Áurea Franco Machado, a Dona Aurita, deixou um rastro luminoso em mais de meio século em favor das causas da comunidade valadarense. Companheira do saudoso Coronel Altino Machado, o casal viveu à frente do seu tempo. Paulista, descendente da tradicional família Camargo, Aurita viveu em Uberaba, seguindo seus pais, Raul Franco e Olímpia Camargo Franco, e depois veio para Valadares.

Ela será para sempre lembrada, não apenas na memória de quem teve o privilégio de conhecê-la, mas pela contribuição enorme que deu para a cidade. Dentre seus feitos, patrocinou a construção da primeira via de acesso ao pico da Ibituruna, na década de 60; fundou a Apae, sendo sua presidente por 10 anos; dirigiu a Escola Doutor Paulo Guimarães, para pessoas com necessidades especiais; fundou a Sociedade Amigas da Univale (Sodami). Ela ainda foi eleita a maior produtora de leite nos anos 60, pela Cooperativa Central dos Produtores de Leite (CCPL). Deixou como legado suas preciosidades, os filhos: José Altino Machado, Ângelo Machado, Roberto Machado, Altino Machado Júnior, Julieta Machado, Alita Franco Machado, Lenora Machado, Lourdes Elena Machado, Margarida Maria Machado, Marília Franco Machado e Ana Amélia Machado.

José Altino Machado explicou o motivo de o busto da Praça Aurita Franco Machado estar com a boca aberta.Foto: Eduardo Lima

O grito do não

Poucos sabem o motivo de o busto da Praça Aurita Franco Machado estar com a boca aberta. E o significado vai muito além do que se imagina. O filho mais velho, José Altino Machado, revelou em entrevista ao DIÁRIO DO RIO DOCE o verdadeiro motivo: “A boca aberta do busto na praça significa o “Grito do Não”, que minha mãe deu quando tentaram impedir a visita de Leonel Brizola a Governador Valadares. Ela falou: ‘Aqui não!’ E algum fotógrafo registrou o momento. Minha Mãe, juntamente com outras mulheres, como Dona Cirene Albergaria, Dona Zulmira e tantas outras, lutou pelo desenvolvimento de Valadares e pela boa política no movimento de 1964. Até então, elas eram citadas na história, mas não reconhecidas. Infelizmente, esse tipo de homenagem deveria ser feito quando a pessoa está viva. Temos a péssima cultura de homenagear depois que morrem”, disse Altino.

por Eduardo Lima | eduardolima@drd.com.br