PAPO DE BOLEIRO: Cruzeirinho da av. Brasil e o preço do progresso

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FOTO: Divulgação

Na trajetória da vida pública, em algumas ocasiões ouvimos de pessoas sábias e empreendedoras que o progresso impõe sacrifícios, renúncias e, às vezes, muitas tristezas.

Quando intervenções são encetadas em vilas, favelas e aglomerados, demolições (com ou sem indenizações) são necessárias, permitindo a aberturas de ruas e outros melhoramentos essenciais, devidamente projetados. Nem sempre os reassentamentos de pessoas/famílias se operam no mesmo aglomerado.

Passando para o lado esportivo vem a notícia de que o município, ou sua autarquia maior(SAAE), está em vias de operar, na forma da lei, a desapropriação do terreno da Praça de Esportes do Cruzeiro Futebol Clube, que muitos teimam em chamar de Cruzeirinho, na av. Brasil. A finalidade dispensa comentários e esclarecimentos: a ampliação do Serviço Autônomo de Água e Esgoto de Governador Valadares, implicando em ocupação da área com quem faz divisa.

Voltemos ao passado: tínhamos um campo de futebol na av. JK, no Vila Bretas, hoje ocupado pelo Senac; tínhamos nas confluências dos bairros São Pedro e Universitário “um senhor” estádio do Clube Atlético Pastoril, transformado em loteamento com o encerramento das atividades da Cobraice; tínhamos em área do pátio da estação da CVRD um campo de futebol que foi desativado; a Desportiva Valadarense (não mais existente) sequer viu sair do papel seu campo de futebol em terreno prometido pelo município; desapareceu o campo do Periquito e o Clube também; Bangu AC e Esporte Clube Ibituruna tiveram seus campos desapropriados no passado (quatro décadas) com o compromisso de receberem campos novos em 180 (cento e oitenta) dias, mas até hoje nada… Há de se registrar que, em relação aos terrenos desses dois últimos, deram lugar a magníficos estabelecimentos educacionais, mas…

Num passado ainda mais distante, tem-se que o Cruzeiro (ou Cruzeirinho) ocupava campo de jogo onde hoje se localiza e funciona o Colégio Ibituruna, deixando o local mediante  doação pelo Município do terreno onde se localiza seu estádio ou praça esportiva.

O Cruzeiro Futebol Clube tem história e tradição. Quem não se lembra do “velho” Marcos (Marcos Alves de Oliveira) e de seu expoente maior, Otávio Coelho de Magalhães, em vias de completar 100 (cem) anos  de idade? E o que falar do senhor Odilon, da Casa de Couros, de Miguel Wenceslau, de Malvino Caldas e outros menos votados?

Em passados distantes, tradicionais clubes amadores de nossa cidade tinham como dirigentes pessoas de bem e de boa índole, que se sacrificavam pessoal e financeiramente em defesa dos clubes que adotaram. Nos dias atuais, nem tanto. Exceções existem, mas não dá para “encher” os dedos das mãos.

Caiu, faz tempo, o muro de Berlim. Fragmentou-se a República Soviética. Vencido o período de exceção em nosso país, a alternância no poder é salutar. É o que acaba de ocorrer em nosso país (e também no Estado).

Nas esquinas, nos botecos e locais outros, no meio esportivo ou não, há um murmúrio não construtivo envolvendo a situação do Cruzeiro, seu patrimônio, seu destino e projeções outras.

Quanto vale o terreno hoje ocupado pelo Cruzeiro Futebol Clube?

O que pretende o Município de Governador Valadares? Simplesmente desapropriar o terreno, investir legalmente em sua posse, efetuando pagamento justo ou fazendo depósito em juízo do que entender como legal e justo? Ou pretende disponibilizar outro terreno, dotando-o de condições para a continuidade das atividades do Cruzeiro(inho), repassando-lhe possível diferença financeira (torna), se houver? Eis a questão.

A transparência e outros princípios inseridos no artigo 37 de Constituição Cidadã do Dr. Ulisses (30 anos completados no último 5 de outubro) se fazem necessários neste momento difícil de transformação por que passa a nação brasileira.

Assim, ao contrário do que ocorreu com Bangú AC e EC Ibituruna, a expectativa e esperança é de que o Executivo nos presenteie com um final feliz, com o CRUZEIRO continuando a ter sua CASA ou campo de jogo. O progresso impõe sacrifícios; porém, aceitáveis e toleráveis. Estamos em pleno século XXI.

Luiz Alves Lopes – Ex-atleta