PAÍS DA VANTAGEM

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As obras sociológicas “Raízes do Brasil”, de Sérgio Buarque de Holanda, e “Casa-Grande & Senzala”, de Gilberto Freyre, explicam muito bem o comportamento social do brasileiro. Para SBH, por exemplo, “Os brasileiros agem de forma mais aventureira do que como trabalhadores… existe uma depredação da natureza, um esforço para colher sem plantar… Tudo se faz com desleixo e abandono, sem projeto, sem método”. Ou seja, vivemos numa sociedade que parece despreparada, onde ainda não se tem, por exemplo, cultura de manutenção dos bens – sejam públicos ou particulares -, falta estética dos amplos jardins e falta interesse em contribuir com a limpeza urbana.

“Essa plasticidade aventureira tem suas vantagens, mas certamente não conduz à construção de uma sociedade marcada pela associação, pelo planejamento, pelo método”, por isso muita gente tenta levar vantagem, ou fazer qualquer coisa para se dar bem. Apesar de o brasileiro ser trabalhador, em certas situações ordeiro e parte da população ser bem intencionada, a sociedade brasileira ainda é desorganizada.

Cada país tem uma característica, uma cultura, um modelo de desenvolvimento, mas somente aqueles que investiram nos jovens e em educação se desenvolveram extraordinariamente, como, por exemplo, Coréia do Sul e Japão, este último inclusive, nos anos 40, totalmente destruído durante a 2ª Grande Guerra. Não que as gerações mais recentes sejam as únicas responsáveis por nossa redenção; essa responsabilidade está acima de tudo nas mãos de quem detém poder político, e que por isso deve exercê-lo com muita responsabilidade.

O pedreiro combina fazer uma obra em cinco dias, mas “enrola” outros cinco, para ganhar um pouquinho mais. O cliente paga um preço pensando que comprou uma boa mercadoria, quando na verdade leva um produto de qualidade inferior. A “socialite” se passa por rica, leva uma mercadoria consignada, usa, devolve para a loja, não compra e fala para a lojista que não se interessou pela roupa. Um estádio de futebol tem limitação de público, mas vende mais ingressos do que sua capacidade com o intuito de faturar mais. Políticos são eleitos para trabalhar pelo país, mas só fazem a favor deles.

Os mesmos pais e adolescentes que voltam do exterior elogiando a limpeza e a organização dos países mais desenvolvidos são os mesmos que aqui jogam lixo no meio da rua sem a menor cerimônia. A grande “sacada” é poder contar vantagens aos amigos, que viajou ao exterior. Quem dá mais calote é a classe privilegiada. Tem muito “grã-fino” executado judicialmente, que dirige falando ao celular, estaciona em fila dupla, mas odeia pagar multa. Tipo assim pensa estar acima do bem, do mal, da lei e do Estado. Sua condição econômica o leva a crer que, mesmo errado, levar vantagem é um direito.

Virou moda na política brasileira dissimular erros com uma palavrinha que parece mágica: republicano. Se alguém desvia verba, falam que aquilo não é republicano. Se a oposição discorda do governo, dizem que aquela oposição não é republicana. Para eles “o toma-lá-dá-cá” é um gesto republicano. Será que a corrupção no Brasil é um fato republicano?

Quando um candidato perde a eleição, costuma-se premiá-lo com algum cargo importante, seja de secretário, diretor de estatal, ministro ou conselheiro. E se não lhe derem um cargo? O que ele será capaz de fazer se não ganhar um cargo? Como numa prova de concurso público, quando se perde uma eleição, está dado o recado: foi reprovado, não terá a recompensa.

A burocracia é assim. Quando a qualidade dos serviços prestados pelas instituições públicas começa a se deteriorar, ao contrário de promover a capacitação para o aprimoramento do sistema, mudam os nomes dos cargos. Chefe de seção, setor ou departamento, por exemplo, passa a ser chamado de consultor, coordenador ou gerente. A simples mudança de nome não resolve problema da ineficiência. Ainda que a palavra “chefe” seja desairosa, nome de cargo não é sinônimo de avanço, e não há vantagem.

Por Crisolino Filho