por Crisolino Filho

Aquela obra foi elaborada com uma inspiração estética/social, em que o desenho urbano lembra o que acontece nos países desenvolvidos. Estamos falando do CALÇADÃO da Ilha dos Araújos. Talvez seja esta uma das razões pelas quais “gringos”  praticantes de voo livre, quando veem à cidade participar de campeonatos, escolhem a Ilha temporariamente para hospedar. Existe ali alguma coisa semelhante a seus países de origem. É um espaço demasiadamente democrático e aconchegante, que contorna o rio Doce, margeado por árvores, jardins floridos e cantinhos bucólicos onde a grama é misturada à pedaços de madeira e muito mais.

Existindo como uma espécie de reserva ambiental, durante todas as estações do ano é comum ver às tardes e às manhãs, ao largo da orla, dezenas de minúsculos saguis, pássaros de várias espécies, lagartos, insetos e outros, que produzem um belo espetáculo.

Quando se anda pelo Calçadão tem-se a sensação de que ficou para trás, em outra cidade, as esquinas sujas de panfletos espalhados pelas calçadas, carros de som com seus altíssimos decibéis e outros contrastes sociais de maior gravame. Naquele cenário correm ou fazem caminhadas esportistas, homens, mulheres, crianças, adolescentes, a melhor idade, e, claro, muitos desses personagens acompanhados por seus “totós”.

Uns caminham solitariamente, outros em dupla ou em grupo, seja no sentido horário ou anti-horário, de forma que todos se contemporizam, numa espécie de manifestação do inconsciente coletivo. É como se todos repetissem em voz uníssona: como nos sentimos bem aqui! Percebe-se entre uma conversa e outra, as quais nunca vai se saber o desfecho final, que ali é um laboratório de psicologia, onde alguns se dispõem a desabafar, pedir opiniões, rir, brincar, falar das relações, de amigos, do dia a dia, do trabalho e outros assuntos.

Mas aquela via que inspira até poesia, necessita de manutenção constante. Existem luminárias quebradas ou com seus vidros sujos, ou precisando de nova pintura, e algumas lâmpadas – que poderiam ser substituídas pelas de LED — estão queimadas. Em alguns pontos, os cercados de ferro precisam ser restaurados e muitos marcadores de distância estão danificados ou não existem mais.

Desde sua implantação, a administração pública é a responsável por aquele espaço, e é ela quem deve realizar a capina e a recuperação do piso de pedras portuguesas. Os mutirões de limpeza feitos esporadicamente melhoram o local, mesmo assim, precisa de avanços. Pelos mais de 20 anos já passados, foi construído entre os anos 1993/1996, na administração do falecido prefeito Paulo Fernando, essa obra de 4,7 km precisa ser revitalizada, passar por um ajuste de modernização. Muitos dos ilhéus residentes e comerciantes contribuem com a manutenção do Calçadão, cuidam dos jardins que fizeram em frente a seus comércios ou a suas belas casas. Os cantinhos bucólicos cercados de plantas pingo de ouro, grama, cercadinhos e barquinhos de madeira são um charme.

Nos trechos onde se avista a Ibituruna e nos contornos onde o Calçadão passa entre árvores, sente-se a generosidade da mãe natureza. As barraquinhas de água de coco e academias de ginástica em volta da orla sugerem saúde. As pizzarias e barzinhos em contato direto com o barulho do rio são relaxantes. O Calçadão é o maior ponto turístico urbano da cidade.

Além da Ilha, sobressai também com as mesmas características o Calçadão do bairro São Pedro, hoje, um pouco descuidado. Espaços de lazer como estes deveriam ser mais valorizados, e, na medida do possível, ter uma administração focada especificamente neles. Advogamos a ideia de que o Calçadão da Ilha deveria em parceira público/privada ter administração própria, evitando a dependência direta com a Secretaria de Obras, até porque a prefeitura tem muitas prioridades, e lâmpadas vão sempre queimar, pedrinhas vão se soltar, o mato vai sempre crescer etc. A cidade agradeceria muito, afinal, lazer eleva a autoestima, reafirma a cidadania, os valores democráticos  e contribui com o desenvolvimento.

É preciso pensar e fazer. Apesar das constantes alegações de dificuldades financeiras, seria muito bom para a cidade se o poder público construísse também na orla do rio Doce, atrás do Parque de Exposições, no bairro São Paulo, projeto semelhante.