Novo despertar

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FOTO: Divulgação

A modernidade se tornou tão dinâmica, que está difícil acompanhá-la. Até mesmo os mais antenados nas evoluções tecnológicas, geralmente jovens, costumam ser surpreendidos por mudanças para as quais não estavam preparados. Diariamente, surgem novas invenções, cada qual mais inusitada, tornando obsoletos instrumentos e aparelhos que até então eram considerados insuperáveis. Entre os mais populares estão as máquinas de escrever e de fax; os receivers, gravadores, toca-discos e toca-fitas; as câmeras filmadoras, as fitas e os videocassetes; as listas telefônicas, os dicionários e as enciclopédias; os orelhões e outras parafernálias que, no auge da utilização, foram desbancadas.

Essa maravilha do mundo moderno, chamada smartphone, telefone inteligente ou celular, que hoje quase todos levam consigo, reúne funções que praticamente tiraram do mercado inúmeros objetos. O despertador, o relógio de pulso, o espelho, a calculadora, a agenda geral, o rádio, a lanterna, o GPS e, sobretudo, a câmera fotográfica são apenas alguns. Vários outros estão na marca do pênalti.

A tendência é todo artefato tecnológico entrar em desuso, à medida que a ciência avança.  Surpreendente é a velocidade com que isso vem acontecendo, a ponto de alguns deles sucumbirem, antes mesmo de serem inteiramente explorados.

Se esse cenário deixa perplexas as gerações mais recentes, fica fácil imaginar o que se passa nas cabeças dos que nasceram no século passado, lá pelas décadas de l940 a 1960. Gente que, na infância, foi criada à luz de vela, lamparina ou lampião. Gente que por muito tempo cozinhou em fogão de lenha e esquentou água no fogo, para tomar banho em bacia. Gente que usava torrador e moedor de café, e demorou a ter geladeira, chuveiro elétrico, forno micro-ondas, liquidificador, e outros aparelhos domésticos. Gente que ouvia novela no rádio e passou longos anos sem televisão, computador, internet e telefone celular. Gente que se movimentava a pé, a cavalo, em carroça ou charrete, até que conquistou a bicicleta e, depois, o carro. Longe de revoltada, essa gente guarda as melhores recordações do seu tempo, aceita as transformações ocorridas e se orgulha de haver participado da evolução que hoje presencia.

A modernidade também tem refletido no comportamento humano. Ao longo do tempo, muitos hábitos se modificaram e muitos tabus foram derrubados.

Os mais antigos tinham manias condizentes com a época. Sem as opções de hoje, mantinham uma vidinha “arroz com feijão”, mas bem organizada.

Acordavam cedo, sob o cantar do galo, o cacarejar das galinhas, o grito do padeiro ou o sino da igreja. Faziam suas orações, tomavam o tradicional café da manhã, o homem saía para o seu trabalho, a mulher logo se envolvia com a arrumação da casa, o preparo do almoço e outras tarefas caseiras, enquanto os filhos iam para a escola. À noite, uma janta leve, de modo geral uma sopa. Sem Jornal Nacional ou novela das nove, o destino era a cama, o que de certa forma explica a enorme quantidade de filhos gerados pelos casais daquela época. Mas tudo acontecia “a tempo e horas”, sem precisar de agendas ou despertadores.

Agora tudo mudou. Não há rotina pra mais nada. Cada qual tem seu horário de dormir, de acordar, de se alimentar e de fazer amor. O único que se mantém, conforme a tradição, é o café da manhã. Desjejum que os poderosos se sentem cada vez mais “motivados” a preparar, até com certo requinte, para oferecer a inesperados, incômodos e inevitáveis convidados que não raro batem à sua porta, ao alvorecer. Anfitriões que, antigamente, acordavam “com as galinhas”. Hoje, despertam com a chegada da Polícia Federal. De fato, as coisas se modificaram!

Por Etelmar Loureiro