Central do Assinante







PUBLICIDADE



AS MAIS LIDAS
Página Inicial:: >> Notícias de Valadares e Região >> Abre Aspas >>
segunda-feira, 13 de maio de 2013

‘Reparação do passado escravocrata é uma dívida histórica’, afirma advogada

Segundo advogada, pesquisadora e escritora Michely Marques a promoção da igualdade dos negros e inserção social aconteceream, mas o caminho a percorrer ainda é longo
MICHELY MARQUES destaca que o preconceito é algo que começa dentro de casa, com o mau exemplo dos pais. SEGUNDO A advogada, os negros já tiveram muitas conquistas no Brasil, mas o caminho da igualdade social ainda é longo
GOVERNADOR VALADARES -

Ontem, completou-se 125 anos da assinatura da Lei Áurea (Lei Imperial n.º 3.353), sancionada em 13 de maio de 1888 pela Princesa Isabel. A lei extinguiu a escravidão no Brasil. Mas embora o trabalho escravo tenha sido abolido há mais de um século, nos dias atuais ainda é possível observar a escravidão nos rincões do Brasil. Advogada, palestrante e escritora com artigos publicados em temas que abordam a promoção da igualdade e inserção social, Michely Marques, em entrevista ao DIÁRIO DO RIO DOCE, comentou sobre a conseqüência da abolição. Apaixonada pelas causas sociais, Marques falou também a respeito dos avanços conquistados a fim de reparar, o que segundo ela é “uma dívida histórica” com os negros. Dentre as conquistas, a advogada pontua, o sistema de cotas e até mesmo a presidência do Ministro Joaquim Barbosa, frente ao Supremo Tribunal Federal.

DIÁRIO DO RIO DOCE — Conte-nos sobre seu perfil e histórico?

MICHELY MARQUES  — Meu nome é Michely Marques, sou advogada e também pesquisadora com artigos publicados em temas que abordam promoção da igualdade e inserção social. Igualdade não só étnica, mas a igualdade de gênero, com relação às mulheres, a igualdade econômica e a inserção social. Porque se hoje a gente quer ver uma transformação no país, você tem que dar a vara de pescar, condições para a pessoa crescer, desenvolver. É difícil conciliar o exercício da advocacia, com ativismo social, mas sempre que dá eu profiro palestras em outras cidades, em quilombos da região e é um trabalho muito bacana. É uma paixão que surgiu desde a época da faculdade.

DRD — Essa luta começou então na faculdade?

MICHELY MARQUES  — Desde a época da faculdade que eu tive forças para expressar aquilo que eu no fundo desde criança sempre quis. Mas com esse preconceito velado na sociedade, às vezes ficava até com vergonha de assumir uma bandeira. Mas na faculdade eu falei que queria ser feliz. Na época eu não sabia que não tinha nenhum estatuto voltado para a questão social, étnica. E queria criar um estatuto, quando eu descobri assistindo a TV Justiça, o senador Paulo Paim, conclamando a sociedade civil para ajudá-lo, porque estava batalhando sozinho para aprovar o Estatuto da Igualdade Racial. Eu quis ajudar, fazendo o quê? Escrevendo. Provando que a constitucionalidade, do estatuto da igualdade racial, tendo em vista que é uma luta que tem caráter reparatório, pelo que aconteceu na escravidão, esse triste passado escravocrata. Foi ai que tudo surgiu. Na época, a pesquisa também foi publicada. A faculdade achou bacana, várias pessoas me procuraram para divulgar o trabalho, que foi publicado nas maiores revistas jurídicas do país, graças a Deus. E o que fiz, peguei esses trabalhos e mandava sempre para os assessores, para os contatos de movimento social que a gente tem em Brasília. E aquele trabalho como se diz de andorinha, o trabalho de formiguinha foi surtindo efeito. Graças a Deus, ano passado foi aprovado, foi reconhecido a constitucionalidade do sistema de cotas na educação. Então, isso sim é um marco, é um divisor de águas.

DRD — Falando nessa questão de cotas. O seu posicionamento é favorável a essa determinação?

MICHELY MARQUES  — Sim. É uma descriminação positiva. Aristóteles mesmo já dizia que ‘igualdade é tratar igual, os iguais. Desigualmente, os desiguais para que possa equiparar e fazer justiça’. Tenho pesquisas de universidades que adotaram o sistema de cotas, e na época, as pessoas,  os segregadores que rechaçavam, falavam que ia perder o sistema de meritocracia e que iria impulsionar a segregação das universidades entre negros e brancos. Isso foi desmascarado. Uma década após a adoção das primeiras políticas publicas, instituições privadas até tiveram resultados surpreendentes. Melhora na qualidade de ensino, o pessoal entra para competir de igual para igual. Diferença as vezes de 3% só. E depois eles acabam se superando e tendo desenvoltura em matérias mais complexas, como a Unicamp mesmo afirmou, por quê? Porque o negro, o hiposuficiente econômico, quando ele tem uma oportunidade, ele agarra. É a chance de ele mudar a realidade dele. Hoje você não pode falar pelas cotas étnicas, pelo negro. Então é hiposuficiente econômico, estudou em escola publica. Então, 50% das vagas das universidades agora são resguardadas ao hiposuficinete econômico. E 50% à privada. Porque a realidade que se vive hoje nas universidades federais é o que? Normalmente, pessoas mais abastadas, só carrão que é visto. É bacana por que o rico também paga imposto, ok. Mas o pobre também paga e tem essa divida histórica. E hoje 50% é para quem estudou em escola publica com caráter. Desses, 25% no mínimo, são reservadas ao hiposuficiente econômico. Dái é que vai ser divido para as cotas étnicas. É muito bacana isso, e isso vai repercutir bravamente nas gerações vindouras.

DRD — Observando essa questão financeira, vemos que alguns negros são de família de posse, bem como os indígenas. É justo eles ingressarem na universidade pelas cotas?

MICHELY MARQUES  — Isso já regulamentou. Com certeza não. É por isso que eu digo que hoje tem que ser implementadas as políticas publicas e debates em sociedade para esclarecer. A legislação é clara na divisão das cotas: 50% ao hiposuficiente econômico, ele tem que ter obrigatoriamente estudado em escola publica, e também tem a questão da renda per capita. Então, não tem como a pessoa abastada, ainda que seja negro ou indígena entrar. E outra, por exemplo, até para não fazer injustiça. Para ter direito a universidade federal, tem que ter a obrigatoriedade em ter estudado o ensino médio, e nos institutos de ensino fundamental. Porque às vezes tem pessoas que no inicio da vida tem uma condição melhor, estudou o fundamental em escola privada, e depois não teve condição. Então, essas pessoas não vão ficar prejudicadas também. 

DRD — O presidente do STF, Joaquim Barbosa relatou no começo do mês  que a justiça brasileira pune majoritariamente pessoas pobres, negras e sem relações políticas. Disse também que as pessoas são tratadas diferentemete pelo status, cor da pele, e pelo dinheiro. Essa informação procede?

MICHELY MARQUES  — Infelizmente é a nítida realidade. Recentemente, a gente até vê no Facebook, fotos de ladrões de galinha, um senhor negro, com um monte de galinhas amarradas próximo a ele, e ele algemado. Enfim, pega esse pobre coitado que às vezes a lei nem pune ao certo porque trata-se de crime lamênico, para matar a fome. Agora o colarinho branco fica ai né. Infelizmente é a realidade.

DRD — Nesta segunda-feira completou 125 anos da abolição da escravidão. Em muitos rincões do Brasil ainda continua o trabalho escravo? Qual é a medida a ser adotada, investimento em políticas públicas?

MICHELY MARQUES  — Com certeza. O mais triste é que não é so o investimento em políticas publicas. É o que eu falei. O grande desafio é intensificar as políticas publicas para conhecimento das pessoas. Mas o principal é ter debate na sociedade, nas escolas, nas igrejas. Nos veiculo de comunicação. Porque a vitima tem que entender, tem que enxergar que está sendo abusada, que está sendo escravizada, que está sendo usurpada. Infelizmente, conheço sim, a gente trabalha e tenho clientes de vários níveis sociais e a gente vê que falta informação e que essas pessoas também apegam-se em outras. É um carinho tão grande que fica sem jeito de requerer os seus direitos trabalhistas até, porque amam as pessoas. Então, muita gente acaba que meio seduzindo o trabalhador.

DRD — Por que ainda há resistência de algumas pessoas com relação aos negros?

MICHELY MARQUES  — É porque aprendem na família. Os filhos vêem o pai. O filho vai escutar, vai aprender, vê o pai, vê a mãe, maltratando, ofendendo, a crinaça aprende e isso propaga. Voce é aquilo que você vive em casa. É o seu retrato. Porque muitos pais hoje mandam os meninos para a escola e pensam que a escola e obrigada a educar. São pessoas com mentes de senhores feudais, pessoas com a mente do século passado, retrogradas que propagam isso.

DRD — Você teve uma participação na política, já foi assessora parlamentar e como está essa questão política hoje?

MICHELY MARQUES  — A política em si é muito bonita, o que é triste demais é a politicagem. Hoje eu não tenho vinculo nenhum com partido político, não tenho filiação partidária alguma. Hoje eu faço a minha militância independente. E graças a Deus tem surtido muito efeito. Porque muita gente pensa, uma andorinha só não faz verão. É, mas a andorinha vai cantando, chegam outras andorinhas e hoje com os meios sociais, tomam muita proporção. Prefiro escrever artigos. Com certeza, o resultado ia ser maior com apoio político, mas, infelizmente a gente vê que muitas pessoas, grande parte dos agentes politcos pegam pessoas que tem bandeiras, que tem causas nobres, para ser curral, puxador de votos.









COMENTE ESTA NOTÍCIA


COMPARTILHE ESTA NOTÍCIA






NOTÍCIAS RELACIONADAS