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segunda-feira, 15 de julho de 2013

‘Graças a Deus, os brasileiros não querem ficar deitados eternamente em berço esplêndido’

Para o vereador Padre Paulo de Almeida, a visita do papa Francisco ao Brasil deixará um legado de esperança ao povo brasileiro, mesmo se houver protestos durante a Jornada Mundial da Juventude
FOTO: Fred Seixas
O VEREADOR e padre licenciado Paulo de Almeida estará na Jornada Mundial da Juventude e espera que momento sirva de reflexão para o Brasil

Entre 23 e 28 deste mês, o papa Francisco estará presente no Rio de Janeiro para participar da Jornada Mundial da Juventude (JMJ). Para falar sobre o que representa a visita do pontífice ao Brasil, o DIÁRIO DO RIO DOCE entrevistou o vereador, que também é padre licenciado, Paulo de Almeida Machado.

Filósofo, teólogo, psicólogo e dedicado à vida ministerial há aproximadamente 13 anos, Paulo de Almeida comenta que a vinda do papa ao País tem o intuito de trazer uma mensagem ao povo brasileiro “de luta pelos direitos, de combate à desigualdade social”. “[A visita] representa para nós uma mensagem de esperança para o povo católico e, nesse caso, especificamente à juventude.”

Filiado ao Partido dos Trabalhadores (PT) desde 2000 e, embora afastado temporariamente do sacerdócio devido à vereança, Paulo falou também a respeito das duas funções — o sacerdócio e a política. Questionado sobre a falta de envolvimento dos jovens com a religião, ele destacou que é preciso que a igreja fale a linguagem da juventude. “Ela [Igreja] tenta atualizar a mensagem para resgatar os jovens. Porque hoje, se você não falar a linguagem da internet, se não falar a linguagem das redes sociais, você não atinge a juventude”, disse. 

DIÁRIO DO RIO DOCE — De 23 a 28 de julho o papa Francisco estará na Jornada Mundial da Juventude (JMJ), no Rio de Janeiro. O que representa a visita do papa ao Brasil?

PADRE PAULO — Primeiro, gostaria de afirmar que eu fiquei muito feliz com a eleição desse papa. Representa para nós um papa sul-americano, para nós, que somos ligados às causas sociais, representa a vitória de um povo sofrido, a vez e a voz de um povo que ficou por muito tempo marginalizado. Eu fiquei muito feliz com a vitória do papa. E quando ele vem ao Brasil é sempre uma mensagem de esperança que ele traz. E essa mobilização da juventude, a juventude é incendiária no bom sentido da palavra. E, principalmente nesse momento que estamos vivendo, nesse acordar da juventude, esses protestos por melhorias de serviços públicos. Eu creio que ele deve ter até alguma mensagem de esperança nesse sentido. Mas a vinda representa o reavivar. Representa até uma mensagem de esperança para o povo católico e, nesse caso especificamente, à juventude.

DRD — O sr. falou a respeito dessas manifestações e elas aconteceram em conjunto com a Copa das Confederações. O sr. acredita que a visita do papa pode reacender um pouco a vontade dos brasileiros de reivindicarem, já que os olhos do mundo estarão voltados novamente para o Brasil?

PADRE PAULO — Eu estou lendo no momento o livro “O estado que temos e o estado que queremos — Estado para quê e Estado para quem?” Estamos refletindo sobre a quinta semana social brasileira. E todos esses protestos, todas essas manifestações significam o quê? Que o estado é ineficiente, que o estado não tem ofertado um serviço público de qualidade. O país tem questionado as construções faraônicas dos estádios de futebol. Isso foi o estopim para todo o protesto? Não. Para mim foi a gota d’água que acabou vindo a explodir. Então, não creio que vai passar em branco não ter manifestação no Rio de Janeiro na vinda do papa. Eu creio que isso vai acontecer também e ele também é um homem antenado com tudo o que está acontecendo no mundo. Respondendo à sua pergunta objetivamente, isso vai ter uma repercussão internacional. E que bom que tenha, para não termos que jogar nossa sujeira para debaixo do tapete e esconder e ficar como um avestruz, enfiando nossa cabeça na areia e ignorar todos os problemas. Que vejam e que esse momento sirva para isso também. Eu, que estou no parlamento, no meio político, tenho manifestado total apoio e dizendo que é um tempo de reflexão para os políticos. E eu até vi um caixão na Câmara e eu disse assim: ‘não me intimida esse caixão’. Esse caixão está pedindo morte aos políticos corruptos. Eu não me sinto um político corrupto. Eu entrei na política para fazer diferença. Eu sou ético, honesto, tenho caráter. Mas, com certeza, tudo isso é para passar o País a limpo. Todos esses protestos são louváveis. Foi um despertar do País, que não ficou mais deitado eternamente em berço esplêndido. Graças a Deus que os brasileiros não querem ficar deitados eternamente em berço esplêndido. Eu prefiro a parte verás que um filho teu não foge à luta. E o governo, pode ser petista, pode ser tucano, de direita ou de esquerda, é igual feijão em panela de pressão, tem que pôr fogo. Se não for na pressão, não funciona. Quantas coisas já não passaram no Congresso depois dessa pressão popular. Então assim é saudável. Agora, o que a gente não concorda é com depredação, com vandalismo. Acho que as manifestações precisam ser pacíficas. Porque para mim é uma imbecilidade você destruir patrimônio público, destruir patrimônio particular, privado. Porque se destruírem patrimônio público, igual depredaram no Rio de Janeiro e em Brasília, depois vai gastar o dinheiro do seu imposto para consertar aquilo. Dá para protestar pacificamente e obter as conquistas almejadas.

DRD — Muitos falam que política, futebol e religião não se discute. Como o sr. consegue conciliar duas funções, o sacerdócio e a política?

PADRE PAULO — Eu não concordo com essa afirmação, de que política, futebol e religião não se discute. Futebol a gente discute e tem que respeitar. Religião eu penso que não se discute. Religião cada um tem a sua denominação e tem que ser respeitada. Mas a política, para mim, tem que ser discutida. A política é mais polêmica, e os ânimos ficam mais acirrados, porque mexe com poder, envolve interesses. Respondendo objetivamente à sua pergunta: eu sou o primeiro padre eleito vereador aqui em Valadares. É a primeira experiência. E tudo o que é novo leva-se um tempo para se acostumar. Estou assim quebrando paradigmas. E o direito canônico diz que você tem que se afastar, tem que se licenciar por quatro anos enquanto está no parlamento. Mas a decisão final compete ao ordinário local. Uma figura jurídica, o ordinário local é o bispo diocesano. Coloquei nas mãos de Deus e estou aguardando a decisão. Dia 27 de agosto faço 13 anos de ministério, vida sacerdotal. Sou apaixonado pelo ministério. E para mim não teria problema nenhum ficar no parlamento e estar também no ministério, se eu estivesse celebrando os sacramentos e estivesse na minha missão só no fim de semana [daria], porque no fim de semana estou bem ocioso. Se estou perdendo enquanto padre, a igreja também está perdendo. Eu não instrumentalizei a igreja católica em nenhum momento na campanha, tanto é que celebrei missa até o domingo antes da eleição. E depois de eleito não instrumentalizei e não instrumentalizo. Para mim, assim cada espaço tem sua especificidade. Se estou no meio religioso eu não misturo política. Posso tocar em problemas sociais, mas não vou ficar falando de coisas da prefeitura, não vou ficar usando aquele espaço como parlamentar, como vereador. Estou ali para pregar a palavra de Deus. Para mim é muito tranquilo, mas estou colocando nas mãos de Deus para que decidam minha situação. Tem padre que é deputado federal. O padre João, por exemplo, não foi afastado do ministério, mas isso depende do bispo de cada Diocese. E aqui não é permitido. Para ele, eu estou licenciado por quatro anos. 

DRD — Voltando à questão da visita do papa Francisco. O que ele pode deixar de legado social para os brasileiros?

PADRE PAULO — Voltar lá na origem. A minha felicidade com a eleição de um papa argentino. Alguém falou que nós perdemos para a Argentina. Não perdemos para a Argentina. Nesse caso não tem disputa. Ele tem uma sensibilidade social muito grande. Ele teve as divergências dele com a família Kirchner. Isso não foi escondido da imprensa, justamente pela postura dele pelo bem social, defendendo os pobres. Ele, com certeza, traz essa mensagem para o povo brasileiro de luta pelos direitos, de combate à desigualdade social. Isso é visto na mídia. E é bem claro que ele é um homem despojado, homem simples, um homem humilde. Ele dispensa os privilégios, dá até um susto em quem controla os passos dele, porque quebra protocolo. Para vir ao Rio, ele já está dispensando algumas mordomias. Eu vejo assim a postura dele. As atitudes dele de um homem simples, de um homem humilde já estão inseridas na mensagem que ele vai deixar. Não é à toa que ele escolheu o nome de Francisco. Francisco de Assis era de família rica e entregou as vestes para o pai e abraçou a pobreza.

DRD — Falando na Jornada Mundial da Juventude, vemos que alguns jovens não têm tanto interesse na religião. O sr. acredita que é preciso buscar, resgatar esses jovens?

PADRE PAULO — Às vezes eu não tenho respostas, eu tenho perguntas. É mais inteligente perguntar do que responder. As perguntas abrem, as respostas fecham. Os jovens se afastaram da igreja ou a igreja se afastou dos jovens? Quando a igreja não fala a linguagem dos jovens, quando a igreja, instituição, não tem coerência com o que ela prega e o que vive, isso gera um distanciamento da juventude em relação à igreja. Porque aí tem uma fala desconectada com a realidade. Não foram só os jovens que se afastaram da igreja. A igreja também se distanciou dos jovens e faz esse ‘mea-culpa’. Ela faz essa reflexão e reconhece que não tem uma linguagem que a juventude espera, tem que atualizar, tem que modernizar nessa linguagem. E tem que ser coerente, porque os jovens não permitem a incoerência. Você falar uma coisa, pregar uma coisa e viver outra coisa é inadmissível para os jovens. E hoje, se você não falar a linguagem da internet, se não falar a linguagem das redes sociais, você não atinge a juventude. O evangelizar hoje tem que usar essa linguagem moderna.









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