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sábado, 7 de dezembro de 2013

‘O maior desafio é a droga’

Novo comandante do 6º Batalhão diz que a droga é um dos principais problemas em Valadares e explica como a Polícia Militar tem trabalhado para reduzir os índices de criminalidade
FOTOS: Antônio Cota
O TENENTE-coronel Wagner Fabiano destaca que há a necessidade de mudar a legislação penal para reduzir a impunidade
PARA REDUZIR a participação de jovens e adolescentes em crimes, o 6º BPM, segundo o comandante, tem gerido projetos sociais em 20 cidades da região
GOVERNADOR VALADARES -

Ele nasceu em Belo Horizonte e, já cursando a Escola de Oficiais da Polícia Militar de Minas Gerais, veio a Governador Valadares em busca de conhecer o pai. Como ele mesmo disse, “se apaixonou pela cidade” e para cá retornou como aspirante da PM.

 

Após galgar os cargos e patentes inerentes à carreira militar, o hoje experiente tenente-coronel Wagner Fabiano dos Santos assumiu, recentemente, o comando do 6º Batalhão de Polícia Militar, sediado em Valadares.

 

O comandante falou ao DRD sobre sua vinda para a cidade e de como se identificou com ela. Falou ainda da honra e dos desafios de comandar o histórico batalhão que, como ele, veio de Belo Horizonte para Valadares. 

 

Como desafio, o tenente-coronel Wagner aponta o combate às drogas, consideradas por ele como uma das principais causas da violência atual. Para isso, entende que a integração dos diversos órgãos do sistema de defesa social e da Justiça é essencial.

DRD — Como se deu sua vinda para Governador Valadares?

 

Ten.-cel. Wagner — Conheci Governador Valadares vindo conhecer meu pai, aos 21 anos, e também em decorrência da profissão. Eu era cadete da Polícia Militar e fiquei sabendo que meu pai residia aqui. Eu sou de Belo Horizonte, mas a família por parte de pai é toda daqui, e eu não conhecia ninguém. Então, vim a Valadares para conhecer meu pai e me apaixonei pela cidade. Quando me formei resolvi vir para Valadares. Fiquei um período como aspirante na 44ª Cia.; depois fui para Aimorés; também na 153ª, no 43º BPM; no CAA 8 e na 154ª que hoje é a 8ª Cia de Missões Especiais.

 

Minha historia com o 6º BPM é também interessante porque ela começa no bairro Cruzeiro, em BH, onde fica hoje o Colégio Estadual Governador Milton Campos, o Estadual Central. Eu estudei nesse colégio no segundo grau e lá havia sido a sede do 6º Batalhão antes de ele ser removido para Valadares, conhecido na época como 6º Batalhão de Caçadores. Então, minha ligação com o batalhão remonta a minha adolescência. Eu pertenci ao local onde funcionou o 6º Batalhão muito antes mesmo de vir a conhecê-lo, sem sabe sequer que seria policial um dia. E vim a desenvolver minha carreira no 6º e, com muita honra, exercer agora o comando deste batalhão, possuidor de uma história tão importante na vida de Valadares e da Região.

DRD — O que significa comandar o 6º BPM em Governador Valadares?

 

Ten.-cel. Wagner — Em primeiro lugar é uma honra comandar esta unidade. Me sinto orgulhoso e honrado. Ao mesmo tempo, essa honra e essa história tão rica do 6ºBPM nos traz uma grande responsabilidade. Ao mesmo tempo em que pensamos em todas as pessoas que já passaram por aqui e que precisamos valorizar. Isso é um das tônicas do nosso comando: a valorização das pessoas. Valorizar as pessoas e a história desta unidade e aqueles que hoje continuam a construir essa história. É preciso realizar algo. É preciso produzir coisas boas, gerar sensação de segurança, reduzir indicadores de crime, interagir com a comunidade de uma forma mais eficiente e interagir com os demais órgãos do sistema de defesa social também. É um mix de coisas. Posso dizer que é uma honra, ao mesmo tempo uma grande responsabilidade e também um grande desafio.

DRD — O que é preciso fazer para reduzir os índices de criminalidade? 

 

Ten.-cel. Wagner — Uma coisa que eu costumo dizer é que enquanto policiais passamos por três estágios mentais. Em um primeiro momento a gente gera estágio de banalização da violência de tanto ver fatos graves e crimes. Creio que essa banalização ocorre também com outras profissionais, com os jornalistas e o pessoal da área médica, por exemplo. Depois há um estágio de somatização. Há casos de determinados crimes que é como se tivéssemos tomado um soco no estômago, e a gente sente na pele essas coisas. Mas costumo dizer também que há o estágio mental da indignação. A gente precisa se indignar com o crime em todas as suas esferas, com a corrupção, com a criminalidade e com as drogas. Mas não pode ser uma indignação simples, sem nenhuma ação. Tem que ser uma indignação que nos faça ter uma visão crítica da realidade, dos problemas que afligem a comunidade ao mesmo tempo em que temos uma postura de construção de algo bom.

 

Sempre falamos com nossos policiais sobre isto, que é importante ter essa capacidade crítica para entender aquilo que é papel nosso dentro deste contexto e procurarmos fazer da melhor forma possível. Entender também que existem outros órgãos que fazem parte de um sistema e que precisam atuar de forma integrada para que essa indignação seja transformada em ações efetivas de construção de uma realidade melhor.

DRD — Qual o grande problema ou desafio em relação à criminalidade em Valadares?

 

Ten.-cel. Wagner — O maior desafio é a questão da droga. Ela é o pano de fundo para as demais mazelas criminais que temos. Não há um estudo muito claro da quantidade de crimes relacionados ao uso de drogas, mas em nossa experiência diária no trabalho policial a gente vê que uma grande maioria dos crimes está ligada  questão das drogas, principalmente os homicídios, os roubos e assaltos que têm acontecido. Normalmente são indivíduos que possuem algum envolvimento em relação às drogas e que acabam, também, sendo autores e também vítimas de crimes. É um círculo vicioso que precisa ser quebrado.

 

E a gente constata no dia dia que há uma apreensão cada vez maior de drogas que são voltadas para a fabricação de crack. Continuamos com apreensões grande de maconha, mas percebemos uma mudança de uns cinco anos para cá. O que antes era o resto da cocaína hoje é usado com uma mistura de outras matérias e dá origem ao crack.

 

Então, acho que o grande desafio nosso é a questão das drogas e há um desafio também, que é da sociedade, não só da polícia, mas do conjunto, que é a questão da impunidade. Temos problemas na legislação, não um órgão específico culpado, é um problema que faz com que as pessoas tenham a certeza da impunidade. Muito mais que o tamanho de uma pena a ser cumprida, muito mais importante tem que ser a certeza da punição. Hoje tem-se a certeza da não punição, e em virtude disso acabam cometendo mais delitos. Então, temos um problema grave que é a droga. Outro grave problema de legislação que gera uma impunidade e ainda outro componente que são os jovens. Pessoas que ainda estão em um processo de crescimento enquanto pessoas que se envolvem no mundo das drogas, e aí ficam impunes e isso vai capitalizando esse processo.

DRD — O que fazer então para quebrar isso?

 

Ten.-cel. Wagner — Uma mudança na legislação. Mas o que temos feito, em um diálogo constante com a Polícia Civil e o Ministério Público, é elencar como alvos aqueles indivíduos potencialmente mais danosos à sociedade. Alvos que são contumazes na prática de crimes e empreendemos uma postura mais contundente em relação a eles.

DRD — Séria uma forma de dar exemplo aos demais, da máxima de que o crime não compensa?  

 

Ten.-cel. Wagner — Existe uma regra que se chama Regra de Pareto, que diz que 20% das coisas são responsáveis por 80% dos fenômenos. É como se tivéssemos 20% infratores responsáveis por 80% dos crimes. Então, procuramos focar nesse percentual, que pode ser variável, para que esse alvos sejam priorizados no sentido de identificação, de registro de ocorrências por parte da Polícia Militar, de priorizações de inquéritos pela Polícia Civil e denúncias pelo Ministério Público e, consequentemente, sentenças pelo Poder Judiciário de forma tal que esse indivíduo possa ser pinçado. Isso chamamos de repressão qualificada. Elencarmos os indivíduos danosos naquela comunidade e tentar, por intervenção conjunta, retirá-los desse meio.

DRD — É perceptível o aumento da presença de adolescentes e jovens envolvidos com o crime. O que a PM tem feito para amenizar isso?

 

Ten.-cel. Wagner — Isso é muito grave. Daí a necessidade de focarmos nessa faixa etária. A Polícia Militar tem diversos projetos sociais. Em todas as 20 cidades que compõem a área do 6º Batalhão temos projetos nesse sentido. Em Valadares, temos projetos de capoeira, de balé, de futebol, o Proerd [Programa de Erradicação das Drogas], o JCC, que é o Jovens Construindo a Cidadania. Então, é uma gama de projetos realizados com o apoio da Polícia Militar. O que precisamos é que esses projetos tenham uma gestão mais local. Um maior envolvimento da sociedade para fazer com que tenham uma continuidade. A polícia precisa ser um vetor de capitalização desses projetos, de envolvimento, mas é preciso que a própria comunidade tenha condições de sustentá-los. Enquanto isso não é possível, a gente vai dando continuidade e potencializando essas ações preventivas. Afinal, a comunidade é o fim principal do nosso trabalho. Existe uma tríade que é: ofensor motivado; ambiente; e alvo disponível. Se quebramos essa tríade, geramos uma maior segurança. 









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