Mass killers, um pesadelo que está só começando?

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Caro leitor, o país inteiro ficou abalado com a tragédia de Suzano. Imagine eu, que sou médico de adolescentes! Dez vítimas (com os executores) é uma triste marca na história dos crimes de massa no Brasil. Os estudiosos chamam esses atiradores de “Mass killers” – assassinos em massa.

Os Estados Unidos são um país onde esse tipo de violência é endêmico. Morrem centenas de americanos, todos os anos, em atentados no ambiente escolar. A tragédia de Columbine, com 13 vítimas fatais, em 1999, foi o primeiro grande atentado a chamar a atenção de todo o mundo – virou um documentário, inclusive. No Brasil, em 2011, o massacre de Realengo, com 12 vítimas fatais, inaugurou a nossa preocupação… Agora Suzano.

Talvez por estarmos em outro contexto histórico, o caso de Suzano mexeu muito comigo. Sempre houve uma ligação forte desses episódios com o Bullying – era quase como uma complicação extrema do Bullying. E, realmente, quando se investiga a história dos atiradores, ele está quase sempre presente. Mas, à luz do fim da segunda década do século XXI, começamos a intuir que pode haver mais causas: esses fenômenos não são tão simples.

A maioria dos estudiosos considera que os assassinos em massa, quase em sua totalidade, têm algum transtorno psiquiátrico (principalmente a depressão) – por isso o fim mais frequente é o suicídio.

Alguns dados novos são perturbadores: o perfil mostra que a maioria dos atiradores é branca e do sexo masculino. Não necessariamente teriam sido vítimas de Bullying, mas todos sofreriam de um forte sentimento de rejeição (dos colegas, das meninas ou ambos). Todos tinham um verdadeiro fetiche por armas. Frequentemente, possuíam mais de uma arma em casa, algumas sofisticadas. Não é à toa que os EUA são o país onde os massacres são mais comuns, devido à sua legislação liberal, em relação à venda de armas de fogo.

Um viés preocupante: quase todos os mass killers tinham traços machistas em sua personalidade e procuraram alvejar mulheres em sua ação. Outro dado é que eles, quase sempre, agem de maneira premeditada – com muito tempo de planejamento e com uma execução quase teatral, com um “Gran Finale”, em que o suicídio simula a morte honrosa de um guerreiro.

Na tragédia de Columbine, a Internet ainda não tinha o papel relevante que tem hoje. Atualmente, é comum que os atiradores postem várias fotos portando armas, nos dias que antecedem sua sinistra ação. Homens portando armas remetem à impotência e à execução de suas vítimas; para eles, reafirma sua virilidade.

No caso de Suzano, podemos acrescentar mais um dado assustador a essa tétrica equação: as “DARK WEBs” – sites ilegais que estimulam suicídios e homicídios. Tudo leva a crer que a ação dos executores de Suzano teve “consultoria” de um desses sites, que, fato consumado, os retratou como heróis.

Caro leitor, essas novas informações são aterrorizantes, não? Quando a gente analisa nosso atual contexto político/social, em que várias lideranças (dentre elas o presidente da República!) estimulam o ódio e todas as espécies de preconceitos; quando a liberação do porte de armas já tramita no Congresso (enquanto nações mundo afora estão discutindo o contrário…); quando o fundamentalismo religioso toma conta das instituições… O que pensar? Dá medo de escrever, mas episódios como o de Suzano podem, sim, ficar mais frequentes nesse cenário! Estará nossa sociedade importando mais um grave problema dos “irmãos do norte”? Gostaria que minha preocupação fosse um exagero…

Caro leitor, se você me perguntar qual é a solução para esse problema, vou repetir o que meu amigo neuropsiquiatra de Recife, o professor Hugo Monteiro Ferreira, diz: “A cultura do ódio deve ser combatida com a cultura do amor”. Ou seja, trabalhar, em longo prazo, a prevenção nas escolas da cultura machista, do culto às armas, do Bullying e dos preconceitos.

Darlan Corrêa Dias: Coluna Adolescer Bem | Esta coluna é quinzenal.  Se quiser sugerir temas ou tirar dúvidas, utilize o e-mail adolescenteconfidente@gmail.com.