Mais de 160 militares venezuelanos desertaram para Brasil e Colômbia

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FOTO:Divulgação.

Pacaraima, Roraima (AE) – Pelo menos 162 militares venezuelanos abandonaram seus cargos e fugiram para o Brasil e para a Colômbia desde sábado, dia 23, quando agentes da Guarda Nacional Bolivariana (GNB) fizeram cordões de isolamento na fronteira da Venezuela com os dois países, impedindo a entrada de ajuda humanitária, e reprimiram, em alguns casos com violência, manifestações de apoio ao líder opositor Juan Guaidó.

Destes casos, 156 foram registrados nas passagens que ligam regiões venezuelanas aos Estados colombianos de Norte Santander e Arauca, que receberam 146 e dez desertores, respectivamente. Em Pacaraima, no Brasil, buscaram proteção seis sargentos das Forças Armadas do país vizinho.

Os casos mais recentes foram registrados ontem, quando três sargentos da Força Armada Nacional Bolivariana (FANB) desertaram e fugiram da Venezuela para o Brasil. Eles vieram por trilhas na vegetação rasteira, conhecida na região como “lavrado”, e foram encontrados por uma patrulha do Exército que fazia inspeções de rotina na fronteira. Um deles apresentava sinais de desidratação, com enrijecimento muscular.

No domingo, três membros da GNB também entraram no Brasil depois de deixarem seus cargos descontentes com a gestão da crise por Caracas e com a situação geral do país.

“Nos quartéis militares, não há comida. Não tem colchões. Nós, sargentos da Guarda Nacional (Bolivariana, GNB), estamos dormindo no chão”, contou o sargento Carlos Eduardo Zapata, um dos três primeiros a chegar ao País.

Oficialmente, a fronteira venezuelana com o Brasil continua fechada desde quinta-feira por decreto do presidente Nicolás Maduro. A passagem com a Colômbia foi totalmente bloqueada na noite de sexta-feira, após a realização do Venezuela Live Aid em Cúcuta, cujo objetivo é arrecadar US$ 100 milhões em 60 dias para fornecer ajuda aos venezuelanos.

Governo Trump anunciará mais sanções

O vice-presidente dos Estados Unidos, Mike Pence, afirmou em discurso ontem em reunião extraordinária do Grupo de Lima em Bogotá que a administração do presidente Donald Trump imporá mais sanções contra o regime de Nicolás Maduro. O governo americano pressiona pela queda de Maduro e para que seja reconhecido o autointitulado presidente interino, Juan Guaidó.

Pence lembrou que os EUA já impuseram sanções contra ao menos 50 cidadãos venezuelanos e contra a estatal petrolífera PdVSA. Além disso, ressaltou que o governo Trump foi o primeiro a reconhecer Guaidó como “presidente legítimo”. Segundo ele, agora é necessário intensificar o isolamento do regime de Maduro, isolando-o. “Todos os países do Grupo de Lima devem congelar ativos da PdVSA”, defendeu, pedindo também que essas nações passem os ativos do governo venezuelano para o controle de Guaidó.

O vice de Trump repetiu a ameaça feita pelo presidente de que “todas as opções estão sobre a mesa” para lidar com a crise, embora tenha dito esperar uma transição pacífica. Os militares da Venezuela podem aceitar a oferta de anistia ou serão responsabilizados mais adiante, alertou.

Pence afirmou que os EUA já enviaram US$ 139 milhões em ajuda à Venezuela, por meio de Colômbia e Brasil. Ele criticou os partidários de Maduro por queimarem caminhões com ajuda e por disparos indiscriminados contra civis inocentes. “Maduro está desesperado e busca intimidar população”, disse.

O vice-presidente americano comentou que vários países já se comprometeram a lutar contra a lavagem de dinheiro pelo regime venezuelano. Pence afirmou que o governo de Caracas recebe apoio de Cuba, mas garantiu que a força de Maduro diminui a cada dia. Também pediu que México, Uruguai e países do leste do Caribe também reconheçam Guaidó como líder legítimo do país.

Mourão diz que Brasil manterá posição de ‘não intervenção’

O vice-presidente do Brasil, Hamilton Mourão, afirmou que o País vai “manter a linha de não intervenção” na Venezuela, recorrendo somente às estratégias de “pressão diplomática e econômica”, a fim de que uma “solução pacífica” se instaure no país vizinho. O posicionamento do Brasil foi anunciado pelo vice-presidente em sua conta no Twitter.

Mourão, que está participando do encontro do Grupo de Lima, que discute a situação política atual da Venezuela, disse que não haverá “aventuras” com relação ao país caribenho. O vice-presidente ainda condenou a violência cometida ante manifestantes contrários ao regime de Nicolás Maduro. “Condenamos o regime de Nicolás Maduro e estamos indignados com a violência contra a população venezuelana”.

Na semana passada, soldados venezuelanos abriram fogo contra civis que se opunham à operação que buscava impedir o acesso à Venezuela de caminhões com ajuda humanitária. Duas pessoas morreram no incidente.

Paz e segurança

Mourão afirmou em sua conta no Twitter que o Brasil tem um importante papel a desempenhar para que a paz e a segurança dos países do continente americano sejam mantidas.

“Considerada nossa estatura político-estratégica na região, a tarefa não é somente liderar uma iniciativa de preservação da paz e da segurança nas Américas, mas oferecer o valioso exemplo de uma ação conjunta, equilibrada, prudente e consistente para superar a crise na Venezuela”, escreveu Mourão.

por Felipe Frazão e Luiz Raatz | Enviados especiais