A produção de leite brasileira

Após 11 anos, a produção de leite brasileira está prestes a ganhar dados estatísticos atualizados com a realização do Censo Agropecuário, Florestal e Aquícola 2017, realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Mesmo em fase de conclusão, dados preliminares, divulgados pela entidade no segundo trimestre deste ano, sustentam uma análise sobre a evolução dos números oficiais. Segundo a pesquisa, dos 5,1 milhões de estabelecimentos agropecuários existentes no Brasil, 2,6 milhões têm presença de bovinos, dos quais 1,2 milhão detém a produção de leite, em termos percentuais, a atividade leiteira está presente em 45% das propriedades que trabalham com bovinos.

O número sinaliza um cenário já aguardado pelo segmento, porém, mais ameno: queda de 13% em relação ao apurado no Censo de 2006, que identificou 1,4 milhão de estabelecimentos produtores de leite. Sobre a produção, os dados apontam que o volume total de leite em 2017 foi de 30,1 bilhões de litros, o que corresponde a um expressivo aumento de 46% sobre 2006. Aqui, cabe uma ressalva. Se considerados o período da análise, o histórico de dados do próprio IBGE em 2016 e o cenário produtivo de 2017, a expectativa é que o valor sofra alterações ao ser comparado com a Pesquisa Pecuária Municipal (PPM-IBGE) ainda não publicada. A produção subiria, então, para a casa dos 34,8 bilhões de litros. Tal produção, relacionada com o número de vacas ordenhadas, cerca de 12 milhões no período, resultaria em uma evolução recorde de produtividade: 55% entre 2006 e 2017.

No contexto geral, a atividade leiteira no Brasil segue a mesma tendência mundial de crescimento da produção e da produtividade, com redução do número de propriedades e aumento do número de vacas em lactação nos vários sistemas de produção. No entanto, ainda que os avanços alcançados pela pecuária de leite nos últimos 11 anos sejam inegáveis, é preciso questionar a análise baseada nos dados preliminares com relação à produtividade. Como exemplo, o crescimento de 4,7% na produtividade de 2016 para 2017 de 1,7 litro/vaca/ano para 2,5 litros/vaca/ano, tendo como base para essa conclusão os valores apresentados pela Pesquisa Pecuária Municipal do próprio IBGE. Essa análise reforça o questionamento quanto ao volume total de leite produzido, bem como induz a uma análise comparativa sobre o número de vacas ordenhadas que, em 2016, era de 19,7 milhões no país. Dessa maneira, o Censo aponta uma redução de 39% desses animais de um ano para o outro.

O crescimento constante da produção reforça o dilema vivido pela pecuária leiteira do país, ainda muito voltada para o mercado interno. Para reduzir a vulnerabilidade frente à demanda, o segmento precisa ampliar a exportação. Somente dessa forma o produtor deixará de sofrer com as grandes oscilações de preço ao longo do ano, tendo maior previsibilidade para planejar a sua atividade. Para isso, é necessário buscar uma maior eficiência na comercialização de nossos produtos, com mais abertura comercial e inserção internacional da cadeia do leite. Precisamos de um controle técnico mais rigoroso e mais apoio do governo.

Marcelo de Aquino Brito Lima | Engenheiro-agrônomo; professor universitário; fiscal estadual agropecuário do Instituto Mineiro de Agropecuária (IMA); especialista em fertilidade do solo e nutrição de plantas no agronegócio e em educação e gestão ambiental.